
Em 1985, o filme Testemunha (Witness) foi lançado no mercado. Naquela película, um menino é testemunha de um crime e, para sua própria proteção, o investigador do caso, interpretado por Harrison Ford, decide levá-lo, com a sua mãe, para a comunidade Amish onde viviam. Claro que o galã se apaixona pela mãe do garoto, os assassinos tentam se livrar da testemunha e o filme prossegue. Essa foi, provavelmente, a primeira vez que ouvi falar alguma coisa sobre os Amish.
Mais recentemente, em 02 de outubro de 2006, essa comunidade religiosa voltou às manchetes dos jornais. Dessa vez por causa de um crime bárbaro cometido numa pequena escola para crianças Amish em Bart Township, no condado de Lancaster, Pensilvânia. Naquele dia, às 10:25 da manhã, Charles Carl Roberts IV entrou na escola, fez alguns reféns, matou 5 meninas com idades que variavam entre 6 e 13 anos de idade e, por fim, suicidou-se. Foi uma verdadeira tragédia.
Em junho de 2009, participei de um seminário em Harrisburg, capital da Pensilvânia e, naquela oportunidade, tive o prazer de visitar uma comunidade Amish localizada no condado de Lancaster. Vou descrever um pouco dessa experiência.
Amish, para quem não sabe, é um grupo religioso cristão anabatista conhecido por seus costumes conservadores. Anabatista significa que esse grupo rejeita o conceito de batismo de crianças por acreditar que esse sacramento deve ser limitado àqueles indivíduos com idade suficiente para um sincero compromisso com os deveres religiosos. O nome Amish é derivado de Jacob Amman, um religioso do século XVII que se separou dos menonitas e seguiu um caminho ainda mais conservador. Enquando viviam na Europa, esse grupo foi duramente perseguido em função de suas crenças religiosas e, assim, no início do século XVIII, os primeiros Amish chegaram aos Estados Unidos e se instalaram principalmente no estado da Pensilvânia. Hoje, estima-se que haja cerca de 200 mil Amish vivendo nos EUA e Canadá.
Depois dessa pequena introdução, vamos à visita propriamente dita. Ao chegar ao condado de Lancaster, fomos direto ao centro para recepção de visitantes, compramos os ingressos e fomos recebidos em uma pequena sala por uma senhora que, por cerca de 45 minutos, deu algumas informações básicas a respeito daquela comunidade e respondeu às perguntas dos visitantes.
Depois disso, visitamos uma casa que, segundo a guia, é uma réplica de uma casa Amish. Era uma casa simples, mas não era muito diferente do que conhecemos. Os quartos, banheiros, sala e cozinha eram “normais” e os móveis eram apenas mais rústicos. Talvez a maior diferença seja que atividade da família gira em torno da cozinha que é considerada o lugar mais importante da casa. Como os Amish não usam a eletricidade, não há televisão, rádio ou eletrodomésticos. Entretanto, há geladeira, máquina de lavar, ferro de passar roupa e máquina de costura, mas esses utensílios são movidos por diferentes fontes de energia. A geladeira, por exemplo, é movida a gás. A iluminação pode vir de pequenas lâmpadas de querosene ou de um grande lampião ligado a um botijão de gás.

Segundo a nossa guia, os Amish não usam eletricidade por considerar que isso seria um fator de desagregação da família. Ela citou o exemplo de famílias modernas em que o filho fica ligado à internet num quarto, a filha escuta música no outro e o pai assiste a um jogo de futebol na TV. Sem energia elétrica, a família Amish fica reunida na cozinha e isso propicia um ambiente familiar mais saudável. Sob esse ponto de vista, ela tem razão. Entretanto, essa explicação não me satisfez. A energia elétrica foi inventada no final do século XIX e, naquela época, não era possível prever que todos esses inventos estariam à disposição das famílias e que teriam esse poder de desagregá-las. Sei lá. Deve haver outra razão para isso.
Como eles não têm televisão, as famílias são grandes. Em média, cada família tem de 6 a 8 filhos. Basicamente, eles vivem da terra. Contudo, a terra disponível naquela área está ficando cada vez mais escassa para as novas gerações e, com isso, outras atividades estão sendo desenvolvidas na comunidade: encanadores, donos de lojas, prestadores pequenos serviços para turistas etc. Como alguns Amish estão envolvidos em negócios em que telefone é essencial, alguns deles têm, sim, telefones celulares. A diferença é que as baterias dos celulares são recarregados diretamente de baterias de carro. É o progresso batendo à porta dos Amish. Segundo a nossa guia, eles até frequentam o McDonalds!
Apesar desses “momentos de modernidade”, é certo que os Amish preferem viver afastados do restante da sociedade. Eles não prestam serviço militar, não pagam a Segurança Social e não aceitam qualquer forma de assistência do governo. Nem mesmo o Bolsa-Família! Mas, diferente de que alguns possam pensar, eles pagam impostos. Também não há igrejas para que eles celebrem seus cultos. Assim, a cada duas semanas, uma família recebe seus amigos e vizinhos para o serviço religioso. Durante essa celebração, há cânticos em uma língua estranha derivada do alemão e leitura do livro sagrado deles. Toda a “missa” dura entre três e quatro horas.
Quanto à maneira de se vestir, as mulheres usam vestidos longos, geralmente nas cores azul, verde ou preto, com um avental por cima do vestido. Se a mulher é casada, o avental deve ser preto. Se ela é solteira, o avental é branco. Uma espécie de toca branca também deve ser usada. Os homens vestem ternos pretos ou azul escuro e as calças não tem zíper. Além disso, homens casados têm de usar barba sem cortar, mas com o bigode raspado.

Entretanto, nem tudo são flores entre os Amish. Como casamentos fora da comunidade não são permitidos, existe o problema da consanguinedade e suas consequências são tristes. Além disso, os Amish consideram que educação só é necessária para que eles se transformem em bons fazendeiros ou boas esposas, mães ou donas-de-casa. Eu acho que isso limita as oportunidades futuras dos jovens no mercado de trabalho fora da comunidade e faz com que eles continuem, queiram ou não, seguindo aquele modelo de vida. Isso, para mim, é uma forma de opressão.
Depois da visita à casa Amish e de todas essas informações, entramos num carro e começamos a visitar o condado de Lancaster. Eu esperava encontrar uma vila onde todas as casas da comunidade Amish estariam concentradas, mas não é exatamente isso que há naquela área. Famílias Amish vivem lado a lado com outras famílias não-Amish. Não há nada de especial, apenas que, de vez em quando, pode se ver uma carroça Amish, uma ponte coberta construída por membros dessa comunidade ou algumas crianças vestidas de forma diferente no meio do trânsito. Só isso.
Terminada essa volta pela região, fomos a um restaurante em que era servida comida ao estilo Amish. Comida muito boa, temperada com uma grande fome. Depois do jantar, enquanto meus colegas de empresa continuavam à mesa, eu saí para “explorar” as redondezas. Andei algumas centenas de metros e vi um senhor Amish alugando uma carroça para turistas. Mais um sinal de modernidade. Por 20 dólares, eu teria um passeio de 30 minutos.
Entrei na carroça e o passeio começou. No início, ele começou a despejar um monte de informações decoradas a respeito de sua comunidade. Bem típico de guias de turismos. Ouvi aquilo por alguns minutos e então falei que eu preferia conversar sobre alguns aspectos do dia-a-dia. Ele até se mostrou satisfeito com a minha curiosidade.
O passeio em si não teve nada de muito especial, mas a oportunidade de conversar com o Sr. Aaron, um Amish de aproximadamente 60 anos de idade, foi única. Conversamos sobre família, filhos, costumes, progresso e, no final de nosso papo, ele me falou que tinha passado toda a sua vida naquela localidade e estava muito feliz com isso. O Sr. Aaron até aceitou tirar uma foto comigo. Infelizmente, ele não tem endereço eletrônico (e-mail) e eu não pude enviar-lhe foto. Alguns Amish são moderninhos, mas nem tanto!

Na verdade, os Amish não têm fotografias como recordação. Eles fazem uma espécie de árvore genealógica que fica pregada na parede como se fosse uma fotografia da família. Interessante, né?
Referências:
Além das informações obtidas durante minha visita àquela comunidade, alguns dados foram obtidos dos seguintes livretos:
a. Amish Country – A Pictorial View. Published by Americana Souvenirs & Gifts. 2000
b. Hanley, L. Amish – The Old Order – In Words and Photos. Published by Americana Souvenirs & Gifts.
c. Redcay, T. J. .The Old Order Amish – In Plain Words and Pictures. Published by Americana Souvenirs & Gifts. 2000