Publicado por: marcelopaniago | 02/01/2012

As mulheres-girafa de Mianmar

Em dezembro de 2011, minha família e eu fomos conhecer um pouco de Mianmar, aquele país que aparece mais na mídia internacional por abusos dos direitos humanos, por ser governado por uma junta militar e, claro, por Aung San Suu Kyi, a famosa ativista política e ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em 1991.

Miamar, país que foi já foi conhecido como Burma, é um dos países menos acessíveis da Ásia e, portanto, um dos mais misteriosos. A infraestrutura para turismo é ainda precária, o telefone celular não funciona por lá e a internet, quando presente, é muito lenta.  Irritantemente lenta. Disso, tiramos uma lição: não precisamos de internet e celular para viver.

Apesar desses contratempos, agência de turismo que contratamos fez todo o possível para contormar as eventuais dificuldades que aparecessem. No final das contas, visitamos Yangon, Bagan, Mandalay e o lago Inle e ficamos absolutamente encantados com aquele país. As belezas naturais, os templos budistas, o povo, as cerimônias religiosas que presenciamos fizeram dessa aventura inesquecível.

Um dos pontos que me chamou atenção foram as diferentes etnias que compõem a população de Mianmar. Uma dessas etnias é conhecida como  Kayan Lahwi e essa tribo é famosa pelos ornamentos que as mulheres usam no pescoço e que dão a elas uma aparência de que seus pescoços são longos. Por isso, as mulheres dessa tribo são conhecidas como “mulheres-girafa” por turistas de todo o mundo.

Segundo o nosso guia, para visitar a aldeia onde essas mulheres pescoçudas vivem, é necessário obter autorização especial do Governo. Entretanto, não é necessário ir até lá para vê-las. Algumas mulheres dessa tribo vivem em outros locais em Mianmar e até na Tailândia. Geralmente, elas servem de chamariz para algumas lojas venderem tecidos e artesanatos. Visitamos dois desses locais, um em Bagan e o segundo no lago Inle. Nas duas oportunidades, vi a mesma coisa. Algumas senhoras sentadas, costurando ou bordando algum tecido, uma adolescente manejando um pequeno tear e, claro, uma loja para atender os turistas.

Claro que gostei de ter tido contato, mesmo que superficialmente, com aquela cultura, mas tive uma sensação estranha durante a visita. Tive a impressão de estar num zoológico fazendo fotos de algum animal exótico. E as mulheres, pacientemente, posavam para as fotos, pois sabem que o negócio depende delas.

Hoje em dia, as meninas não querem usar os anéis no pescoço. Mas, caso decidam usá-los, têm de começar aproximadamente aos 5 anos de idade. A medida que elas crescem,  as bobinas (anéis) são aumentadas, o peso do metal empurra as clavículas para baixo e comprime a caixa torácica.  Para se ter uma ideia, o peso dos anéis chega a 6 quilos. Ao contrário do que se pensa, o pescoço não é realmente alongado. A deformação da clavícula cria a ilusão de um pescoço esticado. Para dormir, elas apenas viram um parte dos anéis e se deitam. Claro que não deve ser muito confortável.

Há várias hipóteses sobre a razão de se usar tais anéis. Uma delas sugere que esses anéis fariam com que as mulheres se tornassem menos atraentes para outras tribos e consequentemente protegendo-as de serem roubadas e escravizadas. Em contrapartida, há outra teoria que sugere que as mulheres usam as bobinas para exagerar o dimorfismo sexual e assim parecerem mais atraentes. Também foi sugerido que os anéis de bronze fazem com que as mulheres se pareçam com um dragão, uma figura importante no folclore Kayan. Ainda há uma suposição que aventa a possibilidade de que as bobinas podem ser destinadas a proteger as mulheres contra mordidas de tigre. As teorias são tão estranhas quantos os anéis.

Infelizmente, essas diversidades étnicas e culturais estão desaparecendo rapidamente. Tive a oportunidade de mostrar um pouquinho da cultura dos Kayan Lahwi para minhas filhas, discutir com elas sobre isso e sobre os efeitos da “globalização” sobre essas minorias. Meus netos provavelmente não terão a oportunidade de conhecer essas maravilhas.


Respostas

  1. Interessantissima essa cultura….
    e interessante é conhecer pessoas e culturas tão diferentes da nossa…
    abs,


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.