Sofro de acrofobia. Isso não é contagioso, não mata e não estraga os dentes. Mas, em algumas situações, pode ser muito desagradável. Bom, para quem não sabe, acrofobia é o medo irracional de lugares altos. Quem tem esse problema, tem sintomas horríveis quando está “nas alturas”: o coração dispara, as mãos ficam frias e suadas, cada movimento torna-se pesado e difícil e, o pior de tudo, há uma sensação de quase desespero e até falta de ar. É horrível. Entretanto, um dos grandes prazeres que tenho é desafiar esse medo e, sempre que tenho oportunidade, vou a lugares altos. Cada louco com sua mania, né?
Uma dessas oportunidades apareceu quando visitamos Sidney, na Austrália, no final de 2010 – início de 2011. Escalar a Harbour Bridge é uma das atrações daquela linda cidade e imediatamente decidi que eu iria fazer isso. Como minha filha caçula, Ana Laura, não tinha a idade mínima exigida essa aventura, minha esposa Bel teria de fazer o sacrifício de ficar cuidando dela. Convidei, então, a minha filha mais velha, Ana Clara, e ela não quis. Assim, não tive outra alternativa a não ser obrigá-la a ir comigo. “Cadê o Estatuto da Criança e do Adolescente ?”, ela deveria ter perguntado.

Apesar de seus protestos, fomos até o local de inscrição e, como o número de pessoas que pode escalar a ponte é limitado, só conseguimos marcar nossa aventura para 5 dias depois. Escolhemos o grupo das 11:45, pagamos os ingressos e pronto. Aí foi só esperar o grande dia. Enquanto eu passeava por Sidney, eu via as pessoas na ponte, parecendo pequenas formigas, e ficava imaginando como seria a sensação de ver a baía de Sidney daquele ponto. Ou se aquele corajosos estariam sentindo medo. Só de pensar, meu coração gelava.
Finalmente, no dia 03 de janeiro de 2011, Ana Clara e eu, cheios de entusiasmo, apreensão e, no caso dela, um pouco de raiva, fomos para a Harbour Bridge. Chegamos meia hora antes e esperamos. Pontualmente à 11:45, meu grupo foi chamado. A preparação não é simples e envolve instruções de segurança, troca de roupa, passar pelo teste do bafômetro e até algumas simulações. Isso dura 1 hora. Exatamente às 12:45, com temperatura de 17 oC e um ventinho gelado soprando constantemente, colocamos o cabo de segurança e começamos a subida. Ou escalada, como o pacote é vendido (Bridge Climb).
Os primeiros momentos foram os piores. O medo e a vontade de desistir são quase inevitáveis. O meu velho coração quase saía pela boca, mas eu continuei firme. A cada passo, a altura aumentava, minha agonia ia se transformando em quase desespero e eu segurava o corrimão com mais força. Aquela perguntinha incômoda vinha à mente: o que eu estou fazendo aqui? Não há resposta para essa pergunta. E a minha filha? Ela estava se divertindo e não demonstrava medo algum. Acho até que ela pensava enquanto observava meu calvário: “que mico, pai!”
Apesar do sofrimento inicial, depois de algum tempo, comecei a controlar o medo e até consegui apreciar a paisagem. Claro que em nenhum momento me senti confortável, mas consegui desfrutar a beleza daquele local. Durante todo o trajeto, parávamos para que a guia fizesse fotos que depois seriam vendidas a preço de ouro. Durante todo o tempo de escalada, com a ajuda de fones de ouvido, a simpática guia contava detalhes sobre a construção da ponte e fatos interesantes acontecidos ali. Isso deu um colorido especial àquela aventura.
Atingimos o ponto mais alto da ponte, a 134 metro de altura, e paramos mais uma vez para fotos e apreciar a beleza rara da baía de Sidney. Mesmo num dia nublado, ver a Opera House daquele ponto é magnífico. Além disso, eu experimentei a deliciosa sensação de vencer meu medo e isso não tem preço. Tive até vontade de gritar, mas a minha filha definitivamente diria: “que mico, pai!”. Não gritei, pois.
Iniciamos a descida e, duas horas depois de começada a escalada, exatamente às 14:45, com uma mistura de felicidade e alívio, voltamos ao ponto de partida. Definitivamente, valeu a pena. O preço dessa aventura? Bom, com perdão do trocadilho infame, o preço também é lá nas alturas. Para se ter acesso à ponte, minha filha, que pagou como criança, e eu pagamos 380 dólares australianos ou aproximadamente 650 reais no câmbio da época. Mas não é só isso. Como não é permitido levar câmera fotográfica, os organizadores fazem várias fotos durante a escalada. Claro que é impossível não comprar algumas delas e gastamos mais 90 dólares em fotos Depois, alguns souveniers e pronto. Moral da história, essa bricadeira custou quase mil reais.
Apesar do preço e de todo o “sofrimento”, escalar a Harbour Bridge valeu a pena. A vista, a ansiedade, a adrenalina, a excitação, os medos, a alegria de vencer meus limites, enfim, tudo foi fantástico. Mas especial mesmo foi a felicidade de dividir isso com a minha filha. E eu não ouvi nenhuma vez: que mico, pai!


EU NÃO TERIA MEDO DE ESCALAR A PONTE EM SIDNEY. SÓ NÃO VOU POR “PRECAUÇÃO”. {PURO EUFEMISMO}
Por: GENILSON RIBEIRO em 20/04/2011
às 2:32 am