Publicado por: marcelopaniago | 03/04/2011

Jidá – Arábia Saudita

Fui convidado a proferir uma palestra em Jidá, na Arábia Saudita. Aceitei prontamente. Quando falei para minha esposa, a reação dela foi imediata: “Que legal! Mas, além da palestra, o que você vai fazer lá?” Boa pergunta. O que há para se fazer Jidá? Eu não sabia, mas queria descobrir. Fiz algumas consultas rápidas na internet e constatei que essa cidade, apesar de localizada às margens do Mar Vermelho, não tem “vocação” turística e, portanto, sem muito o que o que se ver. Será? Definitivamente, eu queria descobrir.

Cheguei a Jidá (Jedá?) no dia 27 de fevereiro de 2011, sábado, e, ao desembarcar, a primeira impressão que tive não foi das melhores. Depois de 8 horas de voo, dei de cara com o mais ineficiente serviço de alfândega que já vi. Em média, cada passageiro levava intermináveis 10 minutos para ter seu passaporte carimbado. Fiquei impressionado com a lentidão e a completa falta de entusiasmo dos funcionários daquele setor. E o aeroporto não estava cheio. Fiquei imaginando como deve ser durante o Raji, a peregrinação do muçulmanos a Meca. Deve ser um caos!

Passada a raiva inicial, fui direto para o hotel, localizado às margens do Mar Vermelho. Durante o traslado, vi avenidas largas e bem cuidadas. Aquela impressão inicial ruim foi lentamente dando lugar a um sentimento de querer descobrir aquela cidade. A época do ano era favorável. Durante a minha visita, a temperatura estava extremamente agradável (20 a 25º C) e, à noite, até uma brisa geladinha podia ser sentida. Meus anfitriões me falaram que durante o verão, principalmente em julho e agosto, a temperatura pode passar dos 50º C. É mole?

Para poder ter uma ideia da cidade em apenas dois dias, contratei um motorista que serviu de guia. Foi caro, mas valeu a pena. Em Jidá, existe uma parte bastante moderna, com ruas largas, cheias de carrões, edifícios bonitos, mansões, shopping centers, esculturas enfeitando as praças e tudo o que se pode esperar de uma cidade rica. Mas há outra parte, muuuuiiito mais interessante, que é conhecida como Al-Balad ou cidade velha. Ali, há um labirinto de edifícios antigos, alguns em estado precário de conservação, os souks e a atmosfera efervescente que não existe na parte nova da cidade. É definitivamente uma viagem no tempo.

O Souk al-Alawi é a melhor coisa de Jidá. Eu gosto muito da magia que envolve mercados livres, mas, para minha surpresa, diferentemente de outros souks que já visitei, as pessoas ali são extremamente amigáveis. Eu havia lido na internet que seria necessário obter uma permissão para fazer fotografias naquele local, mas não foi isso o que vi na prática. Os vendedores das lojas e barracas ficavam felizes de ver um “turista” e até pediam que fizesse fotos deles. Claro que fiz e, hoje, dezenas e dezenas de fotos dormem nos meus arquivos. Não sei se é necessário ou não, mas repeitando-se os costumes do país e não enfiando a câmera na cara de ninguém, não tive problema algum com as fotografias.

Voltando ao Souk al-Alawi, naquele labirinto de ruas e ruelas, pode-se comprar de tudo. Carne de camelo, doces importados da Turquia, tecidos preto para a fazer a abaia, frutas, legumes e cereais, frango Sadia, perfumes (perfumes? O cheiro era tão forte que chegava a ser desagradável), roupas, temperos, bugigangas e tudo o que a “sua imaginação puder imaginar”. É fácil passar horas perdido naquele ambiente fascinante.

Além da atmosfera daquela região, a arquitetura dos edifícios é muito interessante. Na verdade, os prédios mais antigos na região de Al-Balad simplesmente parecem desfiar a gravidade. Alguns têm as paredes tortas e partes caindo aos pedaços. É difícil imaginar que aquela parte da cidade sobreviverá por muito mais tempo se alguma espécie de restauração não for feita urgentemente. Ademais, as janelas desses prédios mais antigos são “protegidas” com uma espécie de treliça de madeira chamada arabesque e que serve para que as mulheres, no conforto de seus apartamentos, possam ver o lado de fora sem que sejam vistas pelas pessoas na rua. Interessante, não?

Há ainda outros pontos que merecem uma visita em Jidá. A Mesquita Flutuante, Mesquita Jefali, onde são conduzidas as penalidades de cortar as mãos de ladrões, os Portões da cidade velha, a fonte na Cornish Road, o “fish market”, o suposto túmulo de Eva entre outras coisas. Contudo, nada que se equipare à área de Al-Balad.

Mudando de assunto, o hotel em que me hospedei ficava localizado na beira do Mar Vermelho e isso, somado à temperatura bem agradável, à beleza do entardecer, à boa urbanização da área e à possibilidade de observar um pouco a vida em Jidá, me deu estímulo extra para correr quilômetros e quilômetros pela orla marítima. Durante as corridas, vi várias famílias fazendo piquenique ou apenas passeando por ali. Carros estacionados e pessoas conversando calmamente dentro deles. Vi muitas moças, eu suspeito, caminhando pela calçada na orla. Digo “eu suspeito” porque elas estavam cobertas com a abaia, aquela roupa preta que cobre todo o corpo, e um véu preto cobrindo o rosto. Vi apenas os olhos. Em alguns casos, nem isso eu vi. Assim, não pude saber se eram moças ou senhoras.

Como não fui a Jidá para fazer turismo, na terça-feira fiz a palestra. No encerramento do simpósio, todos os participantes foram levados para uma chácara localizada cerca de 50 km da cidade para participar de algumas atividades recreativas. Alguns esportes, piscina, conversa e refrigerantes. Até que foi agradável, mas ficar numa chácara, cercado de homens e sem cerveja, não é a minha praia.

Para compensar, depois dessas atividades, foi servido um delicioso jantar com um prato típico da Arábia Saudita. Esse prato foi servido numa imensa trevessa e tinha arroz, legumes, kebab, pedaços de carne e a cabeça de um carneiro assado. O interressante é que me disseram que o convidado de honra tem o privilégio de comer o olho do carneiro. Será? Pelo sim, pelo não, aceitei a brincadeira. Peguei, sem muita convicção, aquele olho, fiz um contato “olhos no olho” e, sem pensar muito, comi. Ou engoli aquela coisa. Não tem como explicar o gosto. Nao é ruim, não é bom, não é duro, não é macio. É apenas estranho. O pior é que não tinha nenhuma cerveja para ajudar a descer. Eca! Sobrevivi. O resto da comida estava uma delícia.

No final das contas, passei cinco dias em Jidá. Gostei muito da parte antiga da cidade, a orla marítima é realmente bem cuidada e bonita, minhas corridas ao entardecer foram muito prazerosas, a temperatura estava agradabilíssima e meus anfitriões fizeram de tudo para me agradar. Mas, para mim, sempre que eu pensar em Jidá, vou pensar num certo olho. Por que será?

MAIS ALGUMAS FOTOS:

Mesquita na região do Souk al-Alawi

Movimentação diária no Souk al-Alawi

Feira livre no Souk al-Alawi em Jidá

Vai uma carne de camelo aí?

Frutas e legumes fresquinhos no Souk al-Alawi

Um pouquinho da atmosfera do Souk al-Alawi – Jidá

Um comerciante orgulhosamente posando para uma foto

Mais um homem posando para uma foto

Loja de abaias no Souk

Frango Sadia. Produto brasileiro muito apreciado na Arábia Saudita

Prédios caindo aos pedaços na área de Al-Balad

Prédios na área de Al-Balad

Treliças nas janelas. Privacidade ou calor infernal dentro dos apartamentos?

Mais um prédio na área de Al-Balad

Mesquita Flutuante

Futebol na Arábia Saudita. Pintou japonês no samba!

Assando o carneiro. E o cheiro estava uma delícia.

Consegue ver o olho do carneiro?

Eu não só vi como também comi esse olho. Eca!


Respostas

  1. Bem, a parte do olho deve ter sido terrível, mas a visita do mercado, a vista da Mesquita Flutuante é genial…
    Quando eu crescer quero ser que nem tu…
    abs,

  2. Estou simplesmente impressionada com Jidá e a parte antiga da cidade!
    O que são essas construções?!! É muita história!

    Excelentes fotos e forma de transmitir em palavras o que vc viu por lá!

  3. Marcelo

    gostaria de entrar em contato contigo por e-mail.
    Se puder fico agradecida!

    Abraços

  4. Marcelo,
    estou lendo o livro Princesa, que conta a vida de uma nobre na Arábia Saudita. A história do livro se passa nos anos 70, naquela época as mulheres usavam a abaia, mas eu achava que agora esse costume não fosse mais usual por lá. Tinha muita vontade de saber isso e você me tirou essa dúvida ao dizer as mulheres continuam a usar essa vestimenta. É uma pena, achava que por lá as coisas haviam mudado para as mulhres, mas pelo visto parece que não. Um abraço, Ariane. Brasília-DF.

  5. estou fazendo uma pesquisa sobre a Arabia Saudita e principalmente sobre jidah pois minha filha esta pretendendo ir pra la. Como sera para uma mulher ocidental se habitar aos costumes


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