
Climbathon é uma meia maratona (21 km) realizada anualmente na Malásia. A diferença é que essa prova consiste em subir, ou escalar, e descer o Mount Kinabalu, a mais alta montanha do país, com 4095 m de altura. Assim, essa corrida é descrita como a mais dura prova de montanha do mundo e, em 2005, ela se tornou parte do calendário oficial do campeonato mundial de Skyrunning, promovido pela Federação de Esportes de Altitude.
Há alguns anos, vi numa revista de bordo da Malaysian Airlines uma reportagem sobre essa corrida. Claro que fiquei interessado em participar desse gigantesco desafio, mas eu nunca me senti preparado o bastante para enfrentar aquela montanha. No final de julho de 2009, depois de retornar para a Malásia (das minhas férias no Brasil), decidi que eu iria participar da 23a edição da Climbathon no dia 24 de outubro. Comecei os treinos exatamente no dia 28 de julho e, assim, eu tive 88 dias para me preparar para tal desafio.
Antes mesmo da prova, enfrentei alguns problemas para conseguir treinar. O primeiro deles foi conciliar os treinos com minhas constantes viagens (parte de minhas atividades profissionais) e o segundo, e mais difícil, foi conciliar os treinos com as minhas longas jornadas diárias de trabalho. A primeira parte foi até simples de resolver. Apenas levei meu tênis e treinei nas esteiras das academias dos hotéis onde eu me hospedava. A segunda parte foi bem mais complicada. Como não havia jeito de diminuir a carga de trabalho, tive de “aumentar” o meu dia. Em outras palavras, tive de reduzir minhas preciosíssimas horas de sono para treinar de madrugada. Isso foi terrível, mas não havia alternativa.
Durante aqueles 88 dias, fiz 55 treinos e corri, em esteiras ou nas ruas, 540 km. Uma média de quase 10 km por treino. Nesse período, tive duas pequenas lesões que me forçaram a ficar quase duas semanas sem treinar. Além das lesões, tive muita preguiça. Muita mesmo. Mas, no final das contas, eu cumpri o meu plano de treinos e me sentia razoavelmente bem preparado para vencer aquele desafio. Eu tinha três objetivos em mente: atingir o pico do Mount Kinabalu, terminar a prova dentro do tempo limite e, por fim, voltar para casa inteiro.

Subindo o Mount Kinabalu
No dia 23 de outubro, viajei com a Bel e as minhas filhas para o outro lado da Malásia, na ilha de Bornéu. Ansiedade pura. Eu mal podia esperar pelo início da prova. No dia 24, acordei às 4 da manhã e um carro da organização me levou até a base da montanha. Mais ansiedade. Pontualmente às 7 da manhã, a largada foi dada. No início da prova, como não sabia o que vinha pela frente, comecei de forma lenta. Fui aumentando gradualmente o ritmo. Alguns quilômetros mais tarde, já no meio da subida, eu estava esgotado. As dores se espalhavam pelo corpo e várias vezes eu pensei: o que eu estou fazendo aqui? Em alguns pontos, as subidas eram tão íngremes que não acreditava que eu poderia vencê-las. Quando eu estava me aproximando do pico, a 4 mil metros de altura, o cansaço somou-se à menor pressão de oxigênio e eu me senti à beira da exaustão. Eu sabia que tinha de continuar para atingir o pico dentro do tempo limite. Senti até algumas tonturas, mas ver que eu estava tão perto do pico me fez continuar. E continuei.

Os últimos metros da Climbathon 2009
Quando atingi o ponto mais alto da Malásia, tive alguns instantes de pura felicidade. É difícil explicar a magia daquele momento. Eu apenas gritava “consegui!”, “I made it”, “consegui”! Observei por alguns segundos aquela lindíssima paisagem, respirei fundo, e, antes começar a descida, pensei: agora é moleza. É só voltar para casa. Puro engano. A descida é muito mais difícil que a subida. No início, foi tudo bem. Depois de algum tempo, comecei a sentir fortes dores nos músculos anteriores das coxas. Quanto mais eu descia, mais a dor se intensificava. Eu tinha vontade de me sentar e esperar que aquele pesadelo acabasse, mas eu tinha de continuar. Eu descia o mais rápido que eu podia e a base da montanha nunca chegava. Cada passo era uma tortura e eu gemia: ai, merda, ai, ai, merda, ai. Nos últimos quilômetros, eu quase não conseguia andar, mas eu tinha de correr. E corri. Não sei de onde tirei forças, mas terminei a prova. Outra onda de felicidade me invadiu. Dessa vez, pude compartilhar aquele momento único com minha esposa e filhas. Essas memórias ficarão comigo para sempre.

Explosão de felicidade na chegada
Entre os 201 participantes da minha categoria, fiquei em 44o lugar com o tempo de 6 horas e um minuto. Entretanto, o mais importante é que voltei para casa inteiro. Apesar das dores que sinto enquanto escrevo esse relato, já estou pensando no próximo ano. Deve ser sadismo. Ah! Fiquei em primeiro lugar entre os brasileiros. E em último também.

Minhas maiores incentivadoras
Marcelo, parabens pela coragem e persistencia, se eu tivesse participado eu seria o segundo colocado entre os brasileiros, e tambem o ultimo, mas em compensaçao voce seria somente primeiro.
Abraços, Fabio
Por: Fabio Lucio Barbosa em 03/11/2009
às 12:46 pm