Em 1975, um sujeito meio maluco chamado Paul Theroux, apaixonado confesso por trens, decidiu viajar pela Ásia usando apenas esse meio de transporte. Saindo de Londres, ele passou países tão diversos como Turquia, Irã, Paquistão, Índia, Vietnã, Malásia, Japão e outros, terminando essa imensa jornada, depois de mais de três meses, a bordo do famoso Expresso Transiberiano. Ele descreve, com detalhes, essa viagem no livro O Grande Bazar Ferroviário – De Trem pela Ásia, publicado pela Editora Objetiva. Recentemente, li esse livro e, enquanto eu saboreava aquelas narrativas, comecei a pensar sobre as viagens de trem que eu já havia feito. Não são muitas nem tão interessantes quanto aquelas descritas no livro, mas vou aqui relatar algumas.
Minha primeira viagem de trem aconteceu precisamente no dia 25 de abril de 1999. Naquele dia, eu viajei de Londres a Paris. Alguns anos antes daquela viagem, em maio de 1994 para ser exato, uma ferrovia ligando essas duas capitas europeias, que passava por sob as águas geladas do Canal da Mancha, havia sido inaugurada.
Isso obviamente ganhou as manchetes mundiais. Cinquenta quilômetros debaixo do mar. Claro que esse fato estimulou a minha imaginação. Comprei a passagem para o Eurostar e fui para a imensa Vitoria Station. Ansiedade pura. Aquela seria a primeira vez que eu iria a Paris e, ainda por cima, nesse trem. Embarquei. Num acento na janela, pois eu queria ver tudo. Tudo mesmo. Na hora H …. Tchan, tchan, tchan! Eu não vi absolutamente nada. Nada mesmo. Eu apenas sabia que o trem estava dentro de um túnel. E foi isso. Que decepção. Só escuridão, nada mais. Bom, para compensar, Paris foi uma maravilha. Um dia eu conto essa experiência.
Pouco mais de um mês depois, no dia 01 de junho de 1999, eu estava em Roma, na Itália, e resolvi viajar para Veneza de trem. Fui para a estação e, com a ajuda de um primo italiano, comprei a passagem. Na hora de embarcar, entrei no trem, achei minha cabine e esperei. Havia mais quatro ou cinco pessoas ali. O trem começou a andar e eu “pendurado” na janela para não perder um detalhe sequer daquela viagem. Algum tempo depois, um “simpático” cobrador veio conferir as passagens. Eu, naturalmente, mostrei a minha. Ele olhou para o bilhete e começou a falar algo comigo. E não conseguia entender nada. Niente!!! Aquela língua não era nada parecida com o italiano “falado” na novela das oito. O cara estava ficando cada vez mais nervoso, seu tom de voz cada vez mais exaltado e eu, mais assustado. Alguma coisa estava errada. Eu tentando me comunicar em inglês e português e nada. Até que um dos passageiros me explicou, num inglês bem macarrônico, que eu deveria ter validado meu bilhete antes de embarcar e, como não fiz isso, o simpático bilheteiro estava dizendo que eu teria de pagar outro ingresso. Eu pedi a ele que explicasse àquele senhor que eu não sabia disso e que eu gostaria de me desculpar pelo meu erro. Bom, ele aceitou minhas desculpas, perfurou meu bilhete, falou mais algumas palavras que eu não entendi (mas posso imaginar o significado) e saiu da cabine. Belo início de viagem. Mas aprendi uma lição: nunca mais vou me esquecer de validar um bilhete de trem. Além disso, visitar Veneza vale qualquer contratempo. Mais uma experiência para ser contada aqui.
Na Europa, viagens de trem são muito comuns. Na França, por exemplo, o trem TGV (Train à Grande Vitesse ou Trem Rápido, na língua de Camões) é confortável, veloz, muito prático e nunca atrasa. A não ser quando os franceses fazem greve. E meus amigos franceses sempre me dizem que a greve é o esporte nacional. Será? Bom, eu nunca enfrentei um atraso sequer no TGV naquele país. Quando a Bel e eu viajamos de Budapeste para Viena, em outubro de 2008, utilizamos o trem. Nada demais. Viagem rápida, confortável e sem sobressaltos. Nada digno de nota, mas é sempre interessante ter à disposição um meio de transporte barato, seguro, rápido, pontual e eficiente. Coisas do primeiro mundo.
Na China, ja fiz algumas viagens de trem e até descrevi duas delas no post Diário de Viagem – China, publicado em junho.
O mais interessante daquelas longas viagens foi observar o comportamento dos chineses. Eles andam constantemente pelos corredores, fumam incessantemente nas conexões entre os vagões, falam alto como se estivessem sozinhos no trem, bebem, comem, fumam mais uma vez entre os trens, cospem por todos os lados. E eu simplesmente me divirto com tudo isso, pois é mais uma oportunidade de observar uma cultura tão diferente. Sempre que meus colegas chineses me perguntam se eu quero viajar de avião ou trem, eu não tenho a menor dúvida. Não sou louco por trens como Paul Theroux, mas algumas viagens de trem são simplesmente imperdíveis.
Numa outra oportunidade, dessa vez em Taiwan, em junho de 2008, depois de fazer uma palestra em Tainan, uma cidade localizada no sul daquela ilha, tive de voltar rapidamente para Taipei, no extremo norte do país, para pegar meu voo de volta para Kuala Lumpur. Não haveria tempo para a viagem de carro e então decidimos voltar de trem. Para minha surpresa, era um trem-bala capaz de atingir velocidades acima de 300 km/h. O interessante é que não se sente nada dentro do trem, apenas a paisagem passando muito depressa pela janela. Foi uma viagem bem rápida e confortável. Gostei muito daquela experiência.
Infelizmente, para nós, brasileiros, viajar de trem não é comum. Na verdade, trem no Brasil é sinônimo de transporte de cargas e de escândalos na interminável Ferrovia Norte-Sul. Contudo, esse meio de transporte deveria ser mais usado no nosso país, pois, além de seguro, é rápido e barato. Há alguns anos, o governo brasileiro anunciou a construção de uma ferrovia com trem-bala entre as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Espero que esse projeto não se transforme noutra Norte-Sul. Se isso acontecer, os únicos trens do Brasil continuarão em Minas Gerais. Quem nunca ouviu um mineiro dizer que tem um trem dentro do olho?