Imagine uma situação em que você esteja em Islamabad, capital do Paquistão, e tenha uma palestra marcada em Lahore, a segunda maior cidade daquele país. A passagem de avião já está comprada e, de repente, você é avisado de que viagem será feita de carro, pois há rumores de que alguma ação terrorista está sendo planejada para acontecer em Lahore e que estrangeiros são os alvos preferenciais desses ataques. Assim, é recomendável evitar locais como aeroportos, praças e mercados.
Parece brincadeira, mas isso aconteceu comigo há duas semanas, mais precisamente no dia primeiro de outubro de 2009. Claro que o primeiro impacto foi bastante negativo, pois senti que eu não estava em segurança no Paquistão. Depois, comecei a gostar da idéia, pois seria mais uma oportunidade de ver o interior daquele país.
Saímos do hotel às 7 da manhã. Minha primeira surpresa foi com a estrada em si. Na verdade, uma rodovia belíssima, muito bem sinalizada (placas escritas em inglês e em urdu, a língua local), com 3 pistas de cada lado, divididas por uma barreira de concreto, e, mais importante, extremamente bem conservada. De forma geral, a rodovia estava vazia. Poucos carros, alguns caminhões e quase nenhum ônibus.

A paisagem começa árida e, aos poucos, vai se transformando em verde. Há plantações de tudo. Laranja, milho, trigo, arroz e algumas outras culturas que nunca havia visto na vida. Havia também muita terra sendo preparada para o plantio de amedoim e mostarda. Uma terra avermelhada e, sem dúvida, fértil.
Depois de uma hora de viagem, há uma descida bastante acentuada com curvas muito fechadas. Claro que aquilo é uma armadilha para alguns caminhões velhos e, por coincidência, havia um deles tombado na margem da rodovia. Por causa disso, o limite de velocidade naquela ponto é de 50 km por hora. Havia até dois policiais com radar esperando por motoristas mais apresssadinhos. Naquela parte da estrada, as montanhas rochosas lembram as paisagens de filmes de bang-bang. Apesar dessas montanhas, o relevo entre Islamabad e Lahore é bastante plano.
Durante a viagem, vi uma tribo de nômades que vive como seus ancestrais viviam há mil anos. Casas muito rudimentares, pequenos rebanhos de ovelhas e pequenas plantações. Vi também casas de barro muito típicas daquela região. Até mesquitas, para não nos esquecermos de que estávamos no Paquistão. Pena que eu não tive tempo de apreciar tudo como eu gostaria. Fazer fotos, visitar as vilas, conversar com as pessoas. Infelizmente, eu não estava de férias e tinha uma palestra para fazer. Ossos do ofício.
Para descansar um pouco, paramos num desses postos de abastecimento de combustível e restaurante na beira da estrada. Mais uma boa surpresa. O restaurante era bastante limpo, o atendimento bom e o ambiente agradável. Sentamos numa mesa e pedi café. Depois de alguns minutos, um café horrível foi sevido, mas bebi assim mesmo. Voltamos para o carro e continuamos a viagem.
Passamos por três grandes rios durante essa viagem: os rios Jhelum, Chenab e Ravi. Havia algo em comum entre eles: estavam quase secos. Segundo meu anfitrião, os rios ficam secos nessa época do ano, mas na estação chuvosa o nível da água aumenta consideravelmente. Entretanto, há outras razões para essa terrível situação. No rio Chenab, por exemplo, a causa da falta de água são duas represas que o governo da Índia construiu enquanto esse rio atravessa seu território. Consequentemente, a água já não flui como antigamente. Nesse caso específico, o desenvolvimento para a Índia significa um pesadelo para o Paquistão. O mais interessante é que, mesmo quase sem água, há vários canais para irrigação no Chenab e isso também é apontado como uma das causas para o baixíssimo nível de suas águas. Eu já havia lido sobre o grave problema de escassez de água no Paquistão, mas ver a situação de perto me fez ver uma dimensão completamente diferente do problema. Aquilo é uma catástrofe em construção.
Depois de percorrer os 367 km da Motorway M2, chegamos a Lahore. Para sair da rodovia, pagamos o pedágio. Mais uma surpresa. O valor foi 180 rupias paquistanesas ou cerca de R$ 3,90. No Brasil, para percorrer os 165 km da viagem entre Rio Claro, onde eu morava, e São Paulo, o valor desembolsado é de R$ 21,70. Fazendo algumas contas rápidas, chega-se à conclusão de que o pedágio no Brasil é mais de doze (12) vezes mais caro por quilômetro rodado. No Paquistão há terrorismo, nas rodovias de São Paulo, “roubo à mão desarmada”. Salve-se quem puder!
Post Scriptum:
No dia 05 de outubro, enquanto eu escrevia esse relato, um homem-bomba expodiu no escritório das Nações Unids em Islamabad, matando 5 pessoas. Na sexta-feira, dia 9, um suicida explodiu o veículo em que estava, perto de um mercado lotado em Peshawar, no noroeste do Paquistão, matando 49 pessoas e deixando mais de 100 feridos. Não há palavras para descrever tamanha brutalidade, estupidez, intolerância, insensatez, violência. Até quando esse tipo de coisa vai acontecer?