Publicado por: marcelopaniago | 07/02/2010

A Sagrada Família – Barcelona

Barcelona é o bicho. Pensei em vários outros adjetivos para definir essa cidade: linda, fascinante, moderna, fantástica, incrível, encantadora, fervilhante. Na realidade, Barcelona é a soma de tudo isso. Assim, acho que não há outra definição melhor para aquela cidade repleta de atrativos e com uma atmosfera vibrante. Barcelona é realmente o bicho!

Para os turistas, há atrações para os mais diversos gostos: Las Ramblas, o Pueblo Espanyol, a Catedral de Barcelona, as fontes de Montjuic, La Boqueria, o imenso Aquarium, La Pedrera (a casa Mila), Park Guell, o estádio do Barcelona com seu museu do futebol e muitas, muitas outras. Entretanto, a maior atração da cidade, visitada por mais de 2 milhões de pessoas por ano, é a Sagrada Família.

O Templo Expiatório da Sagrada Família, ou apenas Sagrada Família, é uma enorme catedral desenhada pelo arquiteto catalão Antonio Gaudí. O projeto de construção foi iniciado em 1882 e assumido por Gaudí em 1883, quando ele tinha 31 anos de idade. O Templo foi projetado para ter três grandes fachadas: da Natividade, quase terminada com Gaudí ainda em vida, a fachada da Paixão, iniciada em 1952, e a da Glória, ainda por ser construída.

Tive a oportunidade de visitar a Sagrada Família duas vezes, em 2000 e em 2007. Ainda me lembro bem da primeira vez que vi, de longe, aquela majestosa construção. A imponência de suas imensas torres me deixou de queixou caído. Fiquei maravilhado. Entretanto, ao chegar mais perto, comecei a achar a arquitetura um tanto estranha. Entrei naquele imenso templo com um ar de surpresa. Eu realmente esperava algo lindo e aquela catedral não era exatamente o que se espera de uma “Catedral”. Não dá para explicar.  Durante minha visita, andei por todos os lados, desviei-me de andaimes, observei cada detalhe daquela templo. Subi até o topo das torres usando um pequeno elevador que certamente não foi projetado por Gaudí e, modernidades à parte, a vista daquele ponto é muito bonita.

Depois de horas de visita, não mudei minha opinião. A Sagrada Família é uma construção, no mínimo, estranha. Para olhos incultos como os meus, é até feia. Parece que nada foi planejado, há diferenças significativas nas fachadas, há estátuas e decorações de gosto bastante duvidoso, não há muita simetria e as “aquelas coisas ou enfeites” existentes no topo das torres são simplesmente horríveis. Para resumir, visto de perto, achei aquele templo muito feio mesmo.

 

Assim, qual o motivo que levaria um templo “feio” se tornar algo tão apreciado por todos? Bom, talvez isso reflita a genialidade de Galdí. Ele conseguiu fazer com que aquela estrutura estranhíssima, disforme e com vários estilos se tornasse, em conjunto, maravilhosa. Maravilhosa mesmo. De fazer cair o queixo. É simplesmente impossível ficar alheio àquela obra de arte. Genialidade, definitivamente, é para poucos.

Por falar no genial arquiteto Galdí, no dia 7 de junho de 1926, depois de trabalhar por 40 anos na construção da Sagrada Família, ele foi atropelado por um bonde e, por causa de suas roupas velhas e dos bolsos vazios, vários motoristas de taxi se recusaram a transportá-lo para um hospital, com receio de que aquele pobre homem fosse incapaz de pagar a corrida. Assim, ele acabou sendo levado para um hospital que atendia à população mais carente de Barcelona e, ali, ninguém o reconheceu. Somente no dia seguinte, alguns de seus amigos o acharam e, claro, tentaram levá-lo para um hospital melhor. Galdí recusou. Ele morreu três dias depois, em 10 de junho, aos 73 anos de idade. Seu corpo está enterrado no meio da Sagrada Família, sua obra-prima.

Para terminar esse relato em alto astral, em 2008, Wood Allen usou Barcelona como pano de fundo para contar a história de uma complicada trama amorosa no filme Vicky Cristina Barcelona. O grande cineasta, mesmo em tomadas curtas e com planos relativamente fechados, mostrou alguns dos mais conhecidos cartões postais da cidade e conseguiu transmitir os encantos e a atmosfera mágica de um verão em Barcelona. Vale a pena assistir a esse filme. Vale a pena conferir que Barcelona é o bicho!

Publicado por: marcelopaniago | 31/01/2010

Thaipusam 2010

Em abril de 2009, escrevi um relato sobre o Thaipusam, uma fantástica celebração religiosa dos hindus para prestar homenagens ao “Lord Murugan”. Nesse coloridíssimo evento, os devotos jejuam, raspam a cabeça, entram em transe, espetam dezenas de anzóis na pele e até perfuram a língua ou bochechas com uma haste de metal (http://marcelopaniago.wordpress.com/2009/04/19/thaipusam-fe-e-sacrificio-no-hinduismo). Esse festival é realizado uma vez por ano, geralmente no final de janeiro ou início de fevereiro, na Malásia, Cingapura e Sri Lanka. Neste ano, o Thaipusam foi celebrado nos dias 30 e 31 de janeiro. Não tive a menor dúvida e fui de novo.

Ainda sob o impacto daquele ritual, com o forte cheiro de incenso impregnado nas narinas e a música ritmada por tambores e cânticos ininteligíveis ainda ressoando em meus ouvido, resolvi escrever de novo sobre esse tema. Definitivamente, não há como não ficar fascinado com aquelas extremas demonstrações de fé e de entrega. Como uma imagem vale mais que mil palavras, as fotos contam um pouco daquilo que vi.

Entrada do local onde é realizado o Thaipusam

Multidão presente à celebração do Thaipusam

Devoto raspando a cabeça para participar do festival

Outro fiel se preparando para a celebração do Thaipusam

Ritual de preparação para o Thaipusam

Bebê de colo presente ao Thaipusam

Menino se preparando para participar do ritual

Fé que envolve devotos que participam do Thaipusam

Criança presente no festival do Thaipusam

Criança carregando uma oferenda

Menina e a oferenda

Devota presente à celebração

Fé demonstrada em cada pequeno gesto

Fiel presente à celebração do Thaipusam 2010

Fé e concentração antes de iniciar o ritual

Sorriso de felicidade de uma criança trocando os dentes

Menino preparado para o Thaipusam

Oferendas

Mais oferendas

Tambores fazem parte do ritual

Rapaz que toca tambor

Devoto em transe com os olhos completamente virados

Fiel em transe durante a celebração do Thaipusam

Sorriso durante o transe

Devoto em transe

Devoto em transe carregando fogo

Fiel em transe e com a língua furada

Devoto em transe

Devoto em transe e fumando charuto

Mulher em transe e com espeto atravessando a boca

Devota entrando em transe

Mulher em transe sendo ampara por outros devotos

Anzóis na pele do fiel em transe

Detalhes dos anzóis na pele

Fiel puxando as cordas com os anzóis

Fiel em transe e com potes presos por anzóis nas suas costas

Bênçao dada a outro fiel por devoto em transe

Bênçao dada a outro fiel por devoto em transe

Família celebrando o Thaipusam - banho no rio

Banho no rio

Banho depois da cerimônia

Menino tomando banho

Sorriso de felicidade durante o banho

Banho refrescante

Devoto tomando banho depois da cerimônia

Duas devotas tomando banho depois do ritual

Felicidade por assistir ao Thaipusam 2010

Publicado por: marcelopaniago | 24/01/2010

Prambanan – Indonésia

Já relatei neste blogue minhas duas visitas a Borobodur, o maior templo budista da Indonésia (Borobodur – Indonésia, publicado em setembro de 2009). Hoje, vou contar um pouco da visita que fiz a outro templo localizado naquele país: Prambanan, uns dos maiores templos hindus do sudeste da Ásia e tombado pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade (World Heritage Site).

Agosto de 2008, uma tarde muito quente. Cheguei a Prambanan num carro alugado e a primeira coisa que fiz foi contratar um guia. Uma guia, para ser exato. Ela era uma mocinha muito simpática e extrovertida, com 16 ou 17 anos de idade e que estava fazendo um treinamento para se tornar guia oficial de turismo (foto ao lado). Começamos a visita. Ao andar por aquele imenso monumento, ela explicava sua história e os significados de cada detalhes. As lendas, então, eram intermináveis. “O príncipe fulano-de-tal apaixonou-se pela princesa sicrana-de-tal, mas o rei não queria o casamento. Ele só se casaria com a princesa se construísse mil templos em apenas um dia. Entretanto, a serpente de três cabeças, que na verdade era uma feiticeira, tinha planos diferentes e blá-blá-blá…”. E haja criatividade. Com todo o respeito pelas lendas, pedi que ela se concentrasse na história daquele monumento e a minha adorável guia atendeu ao meu pedido.

Prambanan está localizado está localizado na área central da Ilha de Java, cerca de 18 km de Yogyakarta. Sua arquitetura é típica dos templos hindus, com monumentos altos e pontudos. Esse monumento foi construído por volta do ano de 850, mas não está claro quem ordenou a sua construção. Há duas possibilidades: Rakai Pikatan, rei da segunda dinastia Mataram ou Balitung Maha Sambu, durante a Dinastia Sanjaya. Entretanto, é certo que o templo foi abandonado não muito tempo depois de terminada sua construção. E, assim, Prambanan deteriorou-se. A reconstrução daquele complexo começou em 1918 e o monumento principal, com 47 m de altura, ficou pronto em 1956.

Em comparação com Borobodur, esse templo parece menos interessante, menos “monumental”. Mas não se encontram templos com mais de mil anos de história em qualquer esquina. Durante a minha visita, eu fiquei imaginando as dificuldades porque passaram aqueles habitantes da ilha de Java durante a construção de Prambanan.  De onde teriam vindo pedras tão pesadas? Como elas foram transportadas até ali? Viajei na viagem!

Infelizmente, o templo foi muito danificado no dia 27 de maio de 2006 por um terremoto de 6.3 pontos na escala Richter que atingiu a ilha de Java. Quando visitei Prambanan, ainda havia pedras espalhadas pelo chão, esperando para serem recolocadas em seus devidos lugares. Um imenso trabalho de precisão e, principalmente, paciência. E essa restauração já estava em andamento, mas ainda havia muito por fazer. Quem sabe esse templo já estará totalmente reconstruído quando eu tiver o privilégio de revisitá-lo?

Post scriptum:

Na verdade, a lenda que tentei reproduzir, em tom de brincadeira, no início desse texto é a seguinte: o Príncipe Bandung Bondowoso apaixonou-se pela Princesa Loro Jonggrang, a filha do Rei Boko. Entretanto, a princesa rejeitou a sua proposta de casamento, pois Bandung Bondowoso havia matado o Rei Boko e assumido o trono. Bandung Bondowoso insistia naquela união e, finalmente, Loro Bondowoso concordou com a proposta, mas ela impôs uma condição impossível: Bandung deveria construir para ela mil templos numa noite.

O príncipe, então, entrou em meditação e reuniu vários espíritos (demônios) de dentro da terra. Ajudados por esses seres sobrenaturais, ele teve sucesso em construir 999 templos. Quando o príncipe estava quase completando a condição exigida para o casamento, a princesa acordou as empregadas de seu palácio e ordenou que elas colocassem fogo em palha de arroz a leste do templo, tentando fazer com que o príncipe e os espíritos acreditassem que o sol estava nascendo. Quando os galos começaram a cantar, enganados pela claridade da fogueira e barulhos do amanhecer, os ajudantes sobrenaturais fugiram de volta para dentro da terra. O príncipe ficou furioso com o truque e, como vingança, ele transformou a princesa em pedra. Ela se tornou, assim, a última e mais bonita das mil estátuas. A lenda é diferente, mas a criatividade é a mesma.

Publicado por: marcelopaniago | 17/01/2010

Guerreiros de Xi’an

Estatuas diferentes

Em 2003, houve, na Oca do Parque do Ibirapuera, em São Paulo, uma mostra muito especial: “Guerreiros de Xi’an e os Tesouros da Cidade Proibida” em que foram exibidas algumas estátuas dos famosos guerreiros de Terracota. Como bom brasileiro, deixei para visitá-la no dia 08 de junho, exatamente o último dia da exibição. Quando cheguei ao Parque, a fila era tão grande que eu desisti. Em tom de brincaderia, falei para a Bel que algum dia eu iria ver aquelas estátuas na China. Eu nem imaginava que isso aconteceria mais depressa do que eu pensava. Pouco mais de dois anos depois, no dia 23 de julho de 2005, visitei aquele sítio arqueológico único. Uma experiência inesquecível.

Guerreiros de Xi'an 2Exército de terracota, Guerreiros de Xi’an ou ainda Exército do imperador Qin. Esses são os nomes mais comuns dados à fabulosa coleção de mais de 8000 figuras de guerreiros e cavalos feitos em terracota, em tamanho natural, encontrada próxima do mausoléu do primeiro imperador da China, Qin Shihuang. Essas figuras, enterradas em 209-210 aC, variavam em peso, indumentária e penteado, de acordo com a patente. A pintura da face, expressão facial individualizada e as armas e armaduras reais utilizadas criavam uma aparência realista e mostravam o poder de um monarca que podia ordenar a construção de tão monumental empreitada.

Estatuas de cavalosEm março de 1974, alguns agricultores escavavam um poço de água no condado de Lintong, a 35 km de Xi’an e, ao invés de água, eles acharam um tesouro. Um tesouro da humanidade. Eu imagino a surpresa que aqueles homens simples tiveram ao encontrar aquelas estátuas. Em dezembro de 1987, esse sítio foi declarado Patrimônio da Humanidade (World Heritage) pela UNESCO e hoje é uma das mais importantes atrações turísticas daquele país.

Até o momento, mais de 8000 figuras foram escavadas, incluindo soldados, arqueiros, oficiais e cavalos.  As escavações arqueológicas ainda estão em curso devido  à fragilidade natural do material e sua difícil preservação. Recentemente, no dia 17 de julho de 2009, foi anunciado que arqueologistas encontraram mais de 100 guerreiros e um oficial numa nova escavação naquela região.

Durante minha visita àquele sítio, tive uma surpresa. Um dos agricultores responsáveis pela descoberta, já bem velhinho, estava sentado atrás de uma mesa e pacientemente assinava os livros que os visitantes compravam na lojinha de lembranças. Aquele autógrafo está carinhosamente guardado em minha casa.

MAIS ALGUMAS FOTOS:

Guerreiro de Xi'an

Guerreiro de Xi'an

Detalhes do penteado dos guerreiros

Detalhes do penteado dos guerreiros

Milhares de guerreiros

Milhares de guerreiros

Restauração de algumas peças

Restauração de algumas peças

Privilégio e felicidade

Privilégio e felicidade

Publicado por: marcelopaniago | 10/01/2010

Segurança em aeroportos

Depois que o nigeriano Umar Farouk Abdulmutallab, de 23 anos de idade, tentou explodir uma bomba no avião da Northwest Airlines que fazia o voo 253 entre Amsterdã e Detroit, no dia 25 de dezembro último, muito se discutiu a respeito das normas de segurança em aeroportos. Algumas medidas, que aparentemente não fazem muito sentido, como proibição do uso dos banheiros ou recolhimento dos cobertores uma hora antes do pouso, foram imediatamente adotadas. Outras, como a implantação de “body scanners”, provocaram discussão em função de possível invasão de privacidade. No meio disso tudo, aqueles que são obrigados a fazer frequentes viagens internacionais ficam cansados de tantas revistas, tantos procedimentos e tantos detectores de metais.

Eu não quero discutir aqui esses assuntos até mesmo porque não tenho o conhecimento necessário, mas, como todos aqueles que são submetidos a essas rotinas de revistas em aeroportos, já passei por algumas situações desagradáveis. Escolhi duas delas para relatar aqui.

Recentemente, em outubro de 2009, tive de ir à França para uma reunião e fiz uma escala em Amsterdã. Como sempre acontece, ao sair da aeronave, havia agentes de segurança verificando os passaportes dos passageiros. Quando mostrei o meu, o agente o examinou por alguns momentos e gentilmente pediu que eu o seguisse. Fui encaminhado até uma sala onde perguntas de rotina foram feitas. O que eu estava fazendo em Amsterdã, qual era meu destino final, quantos dias eu ficaria na Europa e outras. O agente pediu que eu lhe entregasse o computador, a câmera fotográfica, o disco rígido externo e o celular. Perguntei o que seria feito com eles e o segurança me disse que seriam examinados por um especialista. Abri meu livro e esperei. Nenhuma palavra foi dita durante aqueles momentos. Depois de 20 ou 30 minutos, o oficial voltou e me devolveu todos os equipamentos. Nada foi dito além de um formal “obrigado”. Fiquei pensando qual o motivo havia levado aquele agente de segurança a “aleatoriamente” me escolher para revista tão detalhada. Acho que o fato de meu passaporte conter vistos para países que têm problemas com terrorismo, como Paquistão e Indonésia, levou aquele agente a suspeitar de algo.

Noutra oportunidade, em agosto de 2007, eu estava voltando de Dublin para Kuala Lumpur e tive de fazer escala no aeroporto Heathrow, em Londres. Quando fui passar pela segurança, para minha surpresa, uma agente me disse que eu não poderia passar com as minhas duas bagagens de mão. Eu teria de colocar uma mala dentro da outra. Se eu não conseguisse, teria de escolher entre meu computador e meu equipamento fotográfico. Tentei argumentar que não cabia. Ela, sem mostrar a menor preocupação com a minha situação, falou que eu teria então de deixar um dos equipamentos ali. Fiquei tão nervoso que perguntei se ela achava que eu levaria parte de uma bomba numa mala e a outra parte na outra. Pela primeira vez, ela mostrou alguma emoção e, olhando diretamente nos meus olhos, falou que eu nunca deveria usar a palavra bomba num aeroporto. Eu poderia até mesmo ser preso. Meu coração quase parou. Com um sentimento de raiva, saí da fila e comecei a tentar o impossível: fazer com que dois objetos ocupassem o mesmo espaço. Coloquei as objetivas num canto, dobrei minha bolsa de equipamentos fotográficos, espremi o material que havia na mala, pendurei a minha máquina fotográfica no pescoço. Sei lá. Fiz o que foi possível e, claro, que a mala do meu computador não fechava totalmente. Entretanto, já não havia problema, pois só carregava uma bagagem de mão. A mesma agente que havia implicado com as minhas duas malas, aprovou a gambiarra que eu havia feito. Eu simplesmente não consegui entender aquela situação bizarra. Depois que tudo terminou e eu me acalmei, tive a certeza de que esses agentes são treinados para seguir procedimentos, não para pensar. E eles fazem isso.

Essas revistas são chatas, às vezes absurdas, mas são absolutamente necessárias. O risco existe e tem de ser combatido com tecnologia de ponta e procedimentos bem estabelecidos. Apesar de ficar irritado, todas as vezes que vejo revistas detalhadas, eu me sinto mais seguro. O mais preocupante, a meu ver, é que, enquanto burocratas e ativistas discutem se o uso do “body scanner” é uma invasão de privacidade, terroristas pensam no próximo atentado. Isso, sim, é mais bizarro do que ser forçado a colocar uma mala dentro da outra.

Publicado por: marcelopaniago | 03/01/2010

Brigas de Galos nas Filipinas

Briga de galos

No dia primeiro de outubro de 1975, houve uma luta de boxe entre Muhammad Ali e Joe Frazier valendo o título mundial dos pesos pesados. O ditador Ferdinand Marcos quis que o evento acontecesse em Manila para desviar a atenção das tensões sociais em que o país estava mergulhado naquele momento. Don King, o promotor daquela luta, aceitou a oferta e a luta foi realizada no Araneta Coliseum, um imenso ginásio com capacidade para quase 25 mil pessoas. Essa luta ficou internacionalmente conhecida com “Thrilla in Manila”.

Hoje, já não há lutas como aquela no Araneta Coliseum, mas ali acontecem milhares de outros combates por ano. São as brigas de galos e com direito a transmissão por televisão e tudo. Parece mentira, mas não é. Nas Filipinas, as brigas de galos fazem parte da cultura local. Briga de galoJá em 1521, quando a expedição de circunavegação de Fernando de Magalhães chegou àquelas ilhas, o escrivão Antônio Pigafetta relatou em seu diário: “Eles mantêm grandes galos que nunca são comidos, mas são mantidos com a finalidade de lutar. Apostas pesadas são feitas durante a luta e são pagas ao proprietário da ave vencedora”. Pouco mudou nesses quase 500 anos.

Para ser sincero, eu nunca gostei de brigas de galos. Acho uma covardia e ponto final. Entretanto, há alguns anos, eu estava naquele país e fui convidado para assistir a algumas lutas. A princípio, eu relutei, mas decidi aceitar o convite e poder observar aquela “quase manifestação cultural”. Eu esperava que a rinha fosse em algum lugar pequeno, quase clandestino, mas fui levado para o Araneta Coliseum, o mesmo da luta entre Ali e Frasier. Fiquei estupefato.

Quando chegamos ao ginásio, as brigas já haviam começado. Para minha surpresa, havia milhares de pessoas assistindo às lutas e era um dia de semana qualquer. Depois de algum tempo, entendi que eles eram apostadores. Bom, o ritual de apostas é um espetáculo à parte. Todas elas são feitas por meio de gestos e gritos e, como têm de ser feitas antes do início de cada combate, o barulho aumenta a medida que o início da luta se aproxima. É um som interessantíssimo. De repente, silêncio. A briga começou. Ouvem-se alguns gritos de torcedores, mas nada demais. Depois de cada briga, papéis voam pelo ginásio. É o pagamento das apostas. E o ritual recomeça antes do combate seguinte.

A luta dura, no máximo, 10 minutos. Mas vi algumas em que um dos galos morreu em poucos segundos. A razão para isso é que uma lâmina extremamente afiada e com aproximadamente 10 cm de comprimento é presa na perna esquerda dos galos como se fosse a espora. Fiquei surpreso com aquilo e achei uma crueldade sem tamanho.

httpwww.stuartxchange.orgSabongTari.jpg

Tive a oportunidade de conhecer os bastidores desse evento e, assim, ver a preparação dos galos. Havia uma sala grande onde ficavam os galos e seus treinadores e ali acontecia uma  espécie de ritual antes de cada luta. O treinador segurava a ave, acariciava suas penas e fazia alguns movimentos. Talvez aquilo fosse o aquecimento para a briga. Depois de algum tempo, ele abria uma caixa que continha várias lâminas e escolhia a que lhe parecia mais adequada para o tamanho e peso da ave. A lâmina era presa à perna do galo com ajuda de fita e linha. O treinador executava todas essas tarefas com um ar solene, respeitoso até, talvez sabendo que aquele animal poderia morrer nos próximos minutos. 

Na sala ao lado, a que não tivemos acesso, outras pessoas, veterinários talvez, cuidavam dos galos vencedores após cada combate. Feridas eram limpas, suturas feitas e antibióticos aplicados. Enfim, aquelas pessoas tentavam salvar o coitado do galo vencedor. O perdedor talvez virasse canja.

Não é necessário mencionar que essa atividade movimenta muito dinheiro, talvez alguns bilhões de pesos filipinos por ano. Só para dar uma idéia do tamanho desse mercado, estima-se que haja 50 milhões de galos de briga naquele país. Como são 80 milhões de habitantes, há quase um galo por pessoa. Com toda essa paixão, algumas brigas são até televisionadas. Há políticos conhecidos que adoram esse “esporte” e são proprietários das mais caras aves. Não raro, eles aparecem em revistas especializadas anunciando algum produto direcionado a esse mercado.

Uau! Num só parágrafo mencionei as palavras dinheiro, políticos e brigas de galo. Acho que um conhecido marqueteiro brasileiro se sentiria em casa nas Filipinas. Será?

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Como não é permitido fazer fotografias dentro do ginásio, as fotos que ilustram essa postagem foram obtidas nos seguintes endereços:

http://www.stuartxchange.org/SabongTari.jpg

http://www.jacobimages.com/gallery/d/4850-7/roosters-fight-provincejpg

http://www.sabungero.com/images/misc/philpost3.jpg

Publicado por: marcelopaniago | 27/12/2009

Mercado Flutuante – Tailândia

Floating Market

Sawasdee krab! A Tailândia é um país fascinante. Fascinante mesmo. As belezas naturais de tirar o fôlego, o permanente sorriso dos tailandeses e a improvável mistura da agitadíssima e “nada santa” vida noturna com a profunda fé budista não encontram paralelo em nenhuma outra parte do mundo.

Vendedora em seu barcoUma das atrações de que mais gostei naquele país foi visitar o Mercado Flutuante (Floating Market) de Damnoen Saduak, localizado cerca de 100 km de Bancoc. Nesse mercado, vê-se uma forma antiga e muito tradicional de vender e comprar frutas, vegetais, carne, legumes e até alguns utensílios domésticos. Tudo é comercializado em pequenos barcos. Sem dúvida, aquela foi uma das mais interessantes formas de comércio que já tive a oportunidade de conhecer.

Para se chegar a esse mercado, um ônibus leva os turistas até um dos muitos canais existentes na província de Ratchaburi.Barcos a espera de turistas Esses canais foram construídos em 1866 por ordem de Sua Majestade, o Rei, com o objetivo de melhorar as comunicações naquela província. Naquele ponto, toma-se uma lancha voadora, daquelas que podem ser vistas no filme “007 Contra o Homem com a Pistola de Ouro”, estrelado por Roger Moore e, após cerca de meia hora de passeio, chega-se ao Mercado Flutuante. A primeira impressão é incrível. Dezenas, talvez centenas, de barcos cheios de frutas, vegetais, carne, legumes, bugigangas, enfim, tudo, disputam espaço, e compradores, naquele pequeno canal. Há uma atmosfera muito bonita, coloridíssima, barulhenta e cheia de vida. Hoje, claro, há lojas vendendo os inevitáveis e onipresentes produtos “Made in China”, mas aquele ambiente ainda traz alguma coisa de uma viagem ao passado.

Algumas pessoas haviam me alertado de que o cheiro daqueles canais não era muito agradável. Talvez eu estivesse com o nariz entupido, mas não senti mal cheiro algum. CobrasNa verdade, gostei de cada minuto que passei naquele local. Havia um barco numa das margens do canal e dentro dele havia duas cobras imensas. O objetivo, claro, era “alugá-las” para que turistas mais corajosos pudessem tirar algumas fotos com elas. Não sou corajoso, mas a Bel insistiu e eu coloquei as cobras nos ombros. Acho que a foto ao lado mostra bem o pavor que eu senti quando segurei aqueles répteis imensos, pesados e, por que não dizer, repugnantes. Esse negócio de segurar a cobra definitivamente não é comigo.

A Bel comprou alguns artesanatos e bugigangas e estávamos prontos para voltar para Bancoc. Fomos para o ponto de encontro pré-determinado pelo guia e, para nossa surpresa, fomos levados até o ônibus. Naquele momento, sentimos uma ponta de decepção. Aquele mercado tão original está situado às margens de uma rodovia asfaltada e movimentada. Ficou um sentimento de que aquela volta ao passado era de mentirinha. Mas, apesar desse pequeno “senão”, valeu a pena conhecer o Mercado Flutuante de Damnoen Saduak.

Publicado por: marcelopaniago | 20/12/2009

Jericoacoara – Ceará

Recentemente, minha filha Ana Clara me perguntou porque eu nunca escrevo sobre as minhas viagens pelo Brasil. Boa pergunta. Assim, para satisfazer minha exigente filha, resolvi escrever sobre uma viagem fantástica que fiz há muito, muito tempo, mas que ainda está bastante viva em minha memória.

Em dezembro de 1984, há 25 anos, portanto, fui disputar os Jogos Intervet, uma saudável competição entre as escolas de Medicina Veterinária do Brasil, em Patos, na Paraíba. Para chegar até aquela cidade, o combativo Centro Acadêmico da Veterinária da UFV, do qual eu fazia parte, fretou um ônibus da ViçosaTur. Eu poderia resumir poeticamente aquela viagem como: um ônibus, algumas dezenas de estudantes de veterinária,  alguns milhares de quilômetros pela frente, um único destino. Apesar da poesia, a viagem foi longa, desconfortável e repleta de brincadeiras de gosto duvidoso. Ou seja, foi uma farra.

Em Patos, uma das cidades mais quentes que eu já havia visitado, ficamos alojados em duas salas de aula improvisadas. Colchonetes espalhados por todos os cantos, mochilas amontoadas, roupas espalhadas, muito calor e toda aquela bagunça tão familiar a qualquer viagem de estudantes universitários. Durante os jogos, participei de quase todas as modalidades. Corri, nadei, joguei futebol de campo, de salão, voleibol etc. Ganhei até algumas medalhas. Boas lembranças.

Naquela semana, um amigo, Eduardo Lopes, me convidou para continuar a viagem pelo nordeste depois da Intervet. Ele tinha uma pequena barraca e eu tinha uma vontade imensa de viajar. Bela combinação. Viajaríamos de carona, dormiríamos na barraca ou em qualquer lugar que se mostrasse apropriado. Havia um problema, entretanto. Eu não tinha dinheiro algum. Sem outra alternativa, pedi emprestrado a uma estudante de veterinária de quem eu havia me tornado amigo durante aquela viagem. Ela gentilmente me emprestou alguns cruzeiros, cruzados, cruzados novos, sei lá. O fato é que eu já poderia viajar.

Assim, fomos pegando carona e dormindo na estrada até chegar a Fortaleza. Durante nossa estada de três dias nessa cidade, ficamos sabendo de um paraíso localizado ao norte do estado do Ceará: Jericoacoara. Não tivemos dúvidas, aquele seria nosso próximo destino.

De Fortaleza, fomos de ônibus até uma cidadezinha (ou vila) chamada Jijoca. A viagem foi horrível, horas e horas sacolejando num ônibus sob um calor sufocante. Epopéia digna de cinema. Chegamos a Jijoca ao entardecer. Não havia nada de especial naquele lugarejo e, para chegar a Jericoacoara, teríamos de alugar um carro, uma velha Rural Willis. Não tínhamos dinheiro para tanto luxo.

Entretanto, encontramos um simpático senhor que, depois de alguns “dedos de prosa”, nos ofereceu uma casa para dormir. Nada de conforto, apenas um fino colchão sobre o chão duro, mas era tudo o de que precisávamos naquele momento. Durante a prosa, ficamos sabendo que era possível caminhar até Jericoacoara atravessando as imensas dunas. Para nossa sorte, um homem iria até lá na manhã seguinte para buscar peixes e ele poderia nos guiar. Acordamos antes de o sol nascer e nos encontramos com nosso guia. Ele tinha um burro ou jumento com dois grandes balaios pendurados onde os peixes seriam trazidos. Colocamos nossas mochilas naqueles balaios e começamos nossa caminhada. Teríamos de andar mais de 15 km pelas dunas. Um esforço enorme. Não me lembro exatamente por quanto tempo caminhamos, mas deve ter sido algo como 5 ou 6 horas.

Ao chegar a Jericoacoara, ficamos encantados com a beleza do local. Havia uma imensa duna que terminava exatamante no mar e uma lagoa belíssima formada pelas águas da maré alta represadas pelas dunas. E havia uma pequena vila de pescadores aos pés dessa imensa duna. O mais interessante é que não havia um turista sequer. Nada. Subidos e descemos aquelas dunas dezenas de vezes. Andamos pela praia, apreciamos a beleza descomunal daquele lugar. Havia a pedra furada muito bonita. Compramos comida numa dessas casas de pescadores e à noite comemos bolachas com água. Passamos cerca de dois dias nesse paraíso. Decidimos voltar pelo mesmo caminho, mas sem a orientação do nosso guia e seu jumento. Fiquei receoso, pois não tenho o menor senso de direção. Confiei no Eduardo.  Eu ainda me lembro claramente de um momento em que só víamos dunas por todos os lados. Uma visão lindíssima, mas, ao mesmo tempo, amedrontadora. Se nos perdêssemos, estaríamos com sérios problemas. Mas o “GPS” do cérebro do Eduardo funcionou bem e chegamos a Jijoca sem maiores problemas. Ufa!

Hoje, Jericoacoara deve estar completamente diferente do que vi há 25 anos. Talvez haja estradas asfaltadas e hotéis de luxo. Mas a sensação de estar num local sem ninguém, sem uma placa sequer “Beba Cola-Cola” foi fantástico.

Antes que eu me esqueça, o nome daquela gentil estudante de veterinária que me emprestou o dinheiro para a viagem é Bel e ela se tornou minha esposa. Pensando bem, acho que estou pagando aquele empréstimo até hoje.

Publicado por: marcelopaniago | 13/12/2009

Meios de transporte

Transporte público é um problema em quase todas as grandes cidades do mundo e não poderia ser diferente na Ásia. Na realidade, as metrópoles asiáticas enfrentam problemas agudos nessa área e algumas cidades adotaram meios de transporte interessantes para tentar minimizar esse problema.

Motos em Ho Chi Minh

No Vietnã, por exemplo, o número de motocicletas é assustador. Estima-se que haja 20 milhões motos e motonetas naquele país. Em Ho Chi Minh, antiga Saigon, uma cidade com cerca de 7 milhões de habitantes, há 3,5 milhões de motos. Uma motocicleta para cada dois habitantes! Com números assim, não é difícil de entender porque, no início das manhãs e no final das tardes, quando as ruas e avenidas da cidade são inundadas pelas motocicletas e motonetas, ocorrem verdadeiros engarrafamentos.

Motoqueira em Ho Chi Minh

Isso também gera algumas situações interessantes. O simples fato de atravessar uma rua transforma-se numa tortura. Meu colega de empresa, Bang, me explicou que se deve manter um ritmo constante de caminhada durante a travessia. Ao fazer isso, as motocicletas desviam-se dos pedestres. Com um pouco de medo, fiz isso algumas vezes e funcionou. Sem dúvida, é mais seguro atravessar nas (poucas) faixas de pedrestres. Além disso, há um comportamento interessante entre as mulheres “motoqueiras”. Como a cor branca da pele é muito valorizada, as mulheres dirigem as motos cobertas com longas luvas e máscaras, para evitar a exposição prolongada ao sol ardente dos trópicos. A vaidade feminina não tem limites. Outra curiosidade é ver que tudo, absolutamente tudo, é transportado nessas motonetas. Uma festa para os fotógrafos.

         

Jeepney nas Filipinas

Nas Filipinas, os jeepneys estão presentes em todos os cantos do país. Esse veículo tem uma história interessante. Quando as tropas americanas começaram a sair das Filipinas no final da II Guerra Mundial, centenas de jeeps formam vendidos ou mesmo dados aos moradores daquelas ilhas. Imediatamente, os filipinos começaram a adaptar aqueles veículos para acomodar vários passageiros, colocando assentos e um teto de metal para protegê-los do sol. Por fim, os jeepneys eram decorados com desenhos, de gosto duvidoso, feitos com cores muito vibrantes. Assim, nasceu um jeito popular e criativo de transporte de massa que havia sido virtualmente destruído durante a Segunda Grande Guerra.

Tuk-tuk na Tailândia

Em Bancoc, na Tailândia, os tuk-tuk são parte da cinzenta paisagem da cidade. Esses pequenos triciclos motorizados são usados como táxis e recebem esse carinhoso nome por causa do barulho do motor. Apesar da falta de segurança, turistas adoram passear em alta velocidade pelas ruas barulhentas e engarrafadas da cidade, sentados num tuk-tuk e respirando a fumaça amarga de seu escapamento. Não há como negar que há um charme em ver Bancoc por esse ângulo. É perigoso, mas excitante.

No entanto, não é só na Tailândia que os triciclos motorizados estão presentes. Eles também são vistos em outros paises como Índia, Paquistão, Bangladesh e Cambódia. Em cada um desses países, eles recebem diferentes nomes, mas, no fundo, é a mesma coisa: barulho, inseguranca, velocidade e fumaça. Ou seja, é tudo o que um turista quer experimentar.

Rickshaws em Bangladesh: transporte do futuro?

Em Bangladesh, como já mencionei na resenha Bangladesh, Mais Uma Vez, publicada em abril, há triciclos que são usados para transporte de pessoas e cargas. Ou de pessoas e carga ao mesmo tempo. Esses veículos são conhecidos como rickshaws. Como o relevo daquele país é predominantemente plano, ou seja, sem subidas íngremes, esse meio de transporte se adaptou por todos os cantos. Algumas estimativas apontam que, só na capital, Daca, haja cerca de meio milhão de desses triciclos. Claro que essa imensa quantidade de rickshaws espalhados pelas ruas da capital atrapalham um pouco o fluxo de veículos motorizados, mas inegavelmente, esse meio de transporte é ecologicamente correto. Não poluem, não são responsáveis pelo aquecimento global e ainda são fonte de renda para centenas de milhares de famílias. Algum dia, o mundo vai copiar o que é feito em Bangladesh. Alguém duvida?

ALGUMAS FOTOS FORAM OBTIDAS NOS SEGUINTES ENDEREÇOS:

http://onemansblog.com/wp-content/uploads/2008/02/vietnamese-loaded-scooter.jpg

http://features.csmonitor.com/backstory/2008/10/01/vietnam-eats-sleeps-and-dreams-on-motorbikes/

http://images.travelpod.com/users/cklenotic/10.1226686860.tuk_tuk.jpg

Publicado por: marcelopaniago | 06/12/2009

Vilas Flutuantes

Vila Flutuante - Siem Riep

Diferenças atraem a atenção. Modos de vida com os quais não estamos acostumados recebem nossos olhares de curiosidade. Tive a oportunidade de conhecer uma dessas formas diferentes de aglomeração de pessoas nas chamadas vilas flutuantes. Como o nome indica, essas vilas são formadas por estruturas flutuantes que se trasnformam, entre outras coisas, em moradia, escola, áreas comerciais e de lazer.

Alimentando uma arraia em LangkawiA primeira vez que vi tal estrutura foi na Ilha de Langkawi, na Malásia. Durante um passeio nos manguezais daquela ilha, o barco em que a Bel e eu estávamos passou por uma dessas vilas onde havia alguns barcos-moradia e uma fazenda de peixes (“fish farm”). Era uma vila pequena, sem muitos atrativos, mas ficamos impressionados com a fazenda de peixes. Na verdade, era apenas um local onde diversas espécies de peixes eram mantidas em pequenos cercados para que turistas pudessem obervá-los, alimentá-los e, se quisessem, até comprar peixes bem frescos. Havia um cercado com algumas arraias e alimentá-las foi, ao mesmo tempo, excitante e amedrontador.

Vila Flutuante em Bangladesh 2Durante uma visita a Bangladesh, vi uma aglomeração de barcos na beira de um rio. Mr Rhaman, meu anfitrião naquele país, parou o carro para que eu pudesse conhecer um pouco mais aquele modo de vida. Decidimos fazer uma rápida visita e a miséria e o sofrimento que vi estampados nos rostos precocemente envelhecidos foi de cortar o coração. Apesar de toda a pobreza, sorrisos nos faziam bem-vindos, mas ver famílias inteiras, crianças e velhos, vivendo em pequenos barcos, sem as mínimas condições de higiene e conforto, foi muito triste. Imaginar que tudo o que aquelas famílias possuiam cabia dentro de uma pequena embarcação foi depressivo até. Saí daquela vila com um nó na garganta.

Recentemente, em junho de 2009, vi o mesmo tipo de vila flutuante na Baía de Ha Long, no Vietnam. Comentei rapidamente sobre essa visita no post Baía de Ha Long – Vietnam, publicada em julho. No fundo, a mesma miséria, a mesma falta de opção.

Casa flutuanteA mais completa vila flutuante que já visitei está localizada em Siem Reap, no Cambódia. Naquela cidade, além dos templos localizados no Parque Arqueológico de Angkor, é quase obrigatória uma visita à famosa vila que está localizada nas proximidades do lago Tonle Sap. Ao chegar ao local, aluga-se um barco e navega-se no canal de águas barrentas até o lago. Logo após iniciar a pequena viagem de barco, já é possível observar todas as estruturas flutuantes: casas (casas-barco), escola com uma quadra de basquete, oficinas para barcos, chiqueiro, pequenos armazéns e até uma igreja católica. Tudo, ou quase tudo, que se espera ver numa cidade normal estava presente naquela vila flutuante.

Igreja Catolica flutuante

Menina na baciaÉ inegável que visitar essa vila flutuante seja um passeio interessante, pois a forma de vida é completamente diferente do que conhecemos. Mas é também verdade que a pobreza do lugar é deprimente. Crianças sentadas em bacias de plástico como se fossem pequenos barcos a remo estão por toda parte brigando por um trocado. Outras, vendem bananas e  refrigerantes ou apenas brincam, alheias à miséria que as cerca. É triste.

Para terminar, essas vilas flutuantes despertam a curiosidade pela sua singularidade. Elas são uma forma de organização de pessoas e, como tal, merecem ser conhecidas. Entretanto, para mim, o mais importante foi a certeza de que somos realmente privilegiados.

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