Publicado por: marcelopaniago | 15/01/2012

Cremação no Templo de Pashupatinath – Nepal

Viajar é fascinante por vários motivos, mas, para mim, o melhor é conhecer culturas diferentes, seus costumes, suas comidas e seus rituais. Por falar em rituais, numa viagem recente que minha família e eu fizemos ao Nepal, tivemos a oportunidade de assistir à cerimônia de cremação usada pelos hindus. E eu posso dizer que foi impressionante.

No roteio da nossa viagem a Katmandu, havia uma visita ao Templo hindu de Pashupatinath, um dos templos mais importantes do mundo dedicado ao deus Shiva e que faz parte da lista de Patrimônios da Humanidade da UNESCO. Logo que entramos na enorme área do templo, vimos algumas fogueiras acesas em plataformas localizadas à beira de um rio, mas não entendemos de imediato o que estava acontecendo naquele local. Quando o guia nos informou que aquela era a cerimônia de cremação, ficamos num estado meio de choque, em profundo silêncio e incapazes de nos mover. Com um misto de respeito e curiosidade, assistimos àquele ritual.

De acordo com a tradição hindu do Nepal, antes da cremação, o corpo deve ser mergulhado três vezes no rio Bagmati, um afluente do sagrado rio Ganges. Depois, o corpo é carregado para uma das plataformas que ficam às margens daquele rio. O corpo, enrolado num pano branco ou alaranjado, é cuidadosamente colocado sobre uma pilha de troncos de madeira. Aqueles são os últimos instantes em que amigos e familiares verão o corpo da pessoa que será cremada. Depois de tudo arranjado, a pira funerária é acesa, geralmente pelo filho mais velho.
E assim, os corpos são cremados ali, diante de familiares, amigos, curiosos e turistas. Depois de cremados, as cinzas são varridas para o rio Bagmati e o filho mais velho, aquele que geralmente acende a pira funerária, deve tomar um banho no rio imediatamente após a cerimônia. Não é incomum que parentes se juntem a ele e também tomem um banho no rio Bagmati. Alguns preferem apenas borrifar água daquele rio sagrado em seus corpos para que sejam purificados espiritualmente.

Sei que não há como comparar culturas, rituais, cerimônias religiosas e afins, mas, no ocidente, a morte é tratada de forma tão asséptica, tão distante dos nossos olhos que, ao vê-la de frente, sendo encarada de forma tão aberta, tão natural, a princípio, foi um choque, mas me fez pensar que talvez os hindus estejam certos. Perder entes queridos é doloroso no Brasil, no Nepal ou em qualquer lugar do mundo. Entretanto, fazer cerimônias que exarcebem essa dor não me parece natural. É isso aí. Vivendo e aprendendo.

Publicado por: marcelopaniago | 02/01/2012

As mulheres-girafa de Mianmar

Em dezembro de 2011, minha família e eu fomos conhecer um pouco de Mianmar, aquele país que aparece mais na mídia internacional por abusos dos direitos humanos, por ser governado por uma junta militar e, claro, por Aung San Suu Kyi, a famosa ativista política e ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em 1991.

Miamar, país que foi já foi conhecido como Burma, é um dos países menos acessíveis da Ásia e, portanto, um dos mais misteriosos. A infraestrutura para turismo é ainda precária, o telefone celular não funciona por lá e a internet, quando presente, é muito lenta.  Irritantemente lenta. Disso, tiramos uma lição: não precisamos de internet e celular para viver.

Apesar desses contratempos, agência de turismo que contratamos fez todo o possível para contormar as eventuais dificuldades que aparecessem. No final das contas, visitamos Yangon, Bagan, Mandalay e o lago Inle e ficamos absolutamente encantados com aquele país. As belezas naturais, os templos budistas, o povo, as cerimônias religiosas que presenciamos fizeram dessa aventura inesquecível.

Um dos pontos que me chamou atenção foram as diferentes etnias que compõem a população de Mianmar. Uma dessas etnias é conhecida como  Kayan Lahwi e essa tribo é famosa pelos ornamentos que as mulheres usam no pescoço e que dão a elas uma aparência de que seus pescoços são longos. Por isso, as mulheres dessa tribo são conhecidas como “mulheres-girafa” por turistas de todo o mundo.

Segundo o nosso guia, para visitar a aldeia onde essas mulheres pescoçudas vivem, é necessário obter autorização especial do Governo. Entretanto, não é necessário ir até lá para vê-las. Algumas mulheres dessa tribo vivem em outros locais em Mianmar e até na Tailândia. Geralmente, elas servem de chamariz para algumas lojas venderem tecidos e artesanatos. Visitamos dois desses locais, um em Bagan e o segundo no lago Inle. Nas duas oportunidades, vi a mesma coisa. Algumas senhoras sentadas, costurando ou bordando algum tecido, uma adolescente manejando um pequeno tear e, claro, uma loja para atender os turistas.

Claro que gostei de ter tido contato, mesmo que superficialmente, com aquela cultura, mas tive uma sensação estranha durante a visita. Tive a impressão de estar num zoológico fazendo fotos de algum animal exótico. E as mulheres, pacientemente, posavam para as fotos, pois sabem que o negócio depende delas.

Hoje em dia, as meninas não querem usar os anéis no pescoço. Mas, caso decidam usá-los, têm de começar aproximadamente aos 5 anos de idade. A medida que elas crescem,  as bobinas (anéis) são aumentadas, o peso do metal empurra as clavículas para baixo e comprime a caixa torácica.  Para se ter uma ideia, o peso dos anéis chega a 6 quilos. Ao contrário do que se pensa, o pescoço não é realmente alongado. A deformação da clavícula cria a ilusão de um pescoço esticado. Para dormir, elas apenas viram um parte dos anéis e se deitam. Claro que não deve ser muito confortável.

Há várias hipóteses sobre a razão de se usar tais anéis. Uma delas sugere que esses anéis fariam com que as mulheres se tornassem menos atraentes para outras tribos e consequentemente protegendo-as de serem roubadas e escravizadas. Em contrapartida, há outra teoria que sugere que as mulheres usam as bobinas para exagerar o dimorfismo sexual e assim parecerem mais atraentes. Também foi sugerido que os anéis de bronze fazem com que as mulheres se pareçam com um dragão, uma figura importante no folclore Kayan. Ainda há uma suposição que aventa a possibilidade de que as bobinas podem ser destinadas a proteger as mulheres contra mordidas de tigre. As teorias são tão estranhas quantos os anéis.

Infelizmente, essas diversidades étnicas e culturais estão desaparecendo rapidamente. Tive a oportunidade de mostrar um pouquinho da cultura dos Kayan Lahwi para minhas filhas, discutir com elas sobre isso e sobre os efeitos da “globalização” sobre essas minorias. Meus netos provavelmente não terão a oportunidade de conhecer essas maravilhas.

Publicado por: marcelopaniago | 18/12/2011

Chinatown – Kuala Lumpur

Quem vem a Kuala Lumpur não escapa de uma visita à famosa Petaling Street, conhecida localmente como Chinatown. E como o nome sugere, aquele é o paraíso dos produtos falsificados.  Bolsas Louis Vuitton, relógios Rolex, óculos Gucci, DVD’s com os lançamentos cinematográficos (às vezes antes mesmo de passar nos cinemas da cidade) e roupas das mais variadas marcas. Tudo falsificado ou, como preferem os vendedores, “original copies”, seja lá o que isso significar.

Na entrada dessa rua, que é fechada ao tráfego, há um arco em estilo oriental com as palavras ‘Jalan Petaling / Petaling Street’  dando boas-vindas aos visitantes. Além disso, um toldo de acrílico azulado cobre boa parte da rua, protegendo os vendedores e compradores do sol e da chuva. As barracas, lojas e bancadas estão dispostas de ambos os lados da rua e vendedores disputam os clientes aos gritos. A cada compra, uma longa pechincha. Essa negociação faz parte do charme de Chinatown.

Além de produtos “quase originais”, Chinatown oferece comidas para todos os gostos e paladares. Frutas, patos, noodles, doces e o que você imaginar. A higiene? Bom, em Chinatown, um pouco de sujeira é parte do tempero (a comida vem acompanhada de algum risco de uma infecção intestinal). Feche os olhos, abra a boca e viaje nos sabores de Petaling Street. Isso também é parte do charme de Jalan Petaling.

Com tantas opções, Petaling Street, ou apenas PS para os moradores da cidade, funciona dia e noite. Embora esse seja um endereço muito procurado por turistas, não vou lá muito frequentemente. Desde que me mudei para Kuala Lumpur, em janeiro de 2004, estive em Chinatown apenas 4 ou 5 vezes. Não que eu não goste ou não ache interessante, apenas não fui lá.

Mas vale a pena. Se você gosta desse tipo de aventura, seja bem-vindo à rua Petaling. Ou como dizem na língua local:  Selamat Datang dan Jalan Petaling!

Publicado por: marcelopaniago | 27/11/2011

Himalaia – Nepal

No dia 25 de setembro de 2011, houve um acidente de avião no Nepal e todos as 19 pessoas a bordo faleceram. Eles voltavam de uma voo panorâmico pela Cordilheira do Himalaia. Desastres aéreos são sempre uma tristeza muito grande. No dia 04 de novembro, pouco mais de um mês depois dessa tragédia, minha família e eu tivemos a oportunidade de fazer o mesmo voo panorâmico, chamado de “mountain flight” (voo da montanha, numa tradução meio vagabunda).

No dia marcado, acordamos cedo e fomos direto para o terminal doméstico do aeroporto de Kathmandu (Catmandu?), a capital do Nepal. Descrever aquele terminal é fácil: uma zona, para falar português claro. Mas tudo era festa. Cheios de ansiedade, fizemos o check-in, pegamos os cartões de embarque e esperamos. Esperamos, esperamos e esperamos. Como a visibilidade estava ruim, todos os vôos daquela manhã foram cancelados. Seria isso um aviso? Deveriamos desistir de ver o Monte Evereste? Claro que nem pensamos nessa possibilidade e remarcamos o voo para o dia 07 de novembro.

Assim, acordamos novamente às 5 e meia da manhã, nos juntamos ao grupo que iria fazer o voo e nos dirigimos para o aeroporto. A ansiedade podia ser vista em cada um de nós. Olhei para o céu ao amanhecer e minhas esperanças aumentaram. Ao aproximar do aeroporto doméstico, ouvi um avião decolar. Afinal, o tão esperado voo panorâmico iria acontecer.

Passamos pelas formalidades do aeroporto, entramos num pequeno ônibus e fomos levados até um pequeno avião, modelo Beechcraft 1900, com 19 assentos e hélice. Nada que inspire muita confiança. Entramos naquela pequena aeronave e a apreensão aumentou alguns pontos, mas ainda sob controle. A ansiedade atingiu o máximo quando os motores foram acionados, o valente aviãozinho tremeu e o cheiro de óleo queimado vindo das hélices pode ser sentido de dentro da cabine. O que eu estou fazendo aqui?, pensei. Estou aqui para ver o Evereste. Ponto final. Com a mão suada, quase esmaguei a mão da minha esposa. O avião começou a se movimentar e, com sorrisos nervosos nos lábios, fomos ver o topo de um planetinha azul chamado Terra.

O dia estava meio nublado e o voo durou aproximadamente uma hora, numa rota paralela à cordilheira do Himalaia até o Monte Evereste. O aviãozinho sacolejou, fez barulho, tremeu e meu coração batia mais forte a cada solavanco. Entretanto, quando ultrapassamos as nuvens e vi, pela primeira vez, o Himalaia, imponente e contrastando com a imensidão azul do céu, esqueci meus temores e babei diante de tanta beleza. Aliás, todos os passageiros, com os rostos grudados nas pequenas janelinhas, riam e faziam comentários quanto à beleza única daquelas montanhas geladas. Tive vontade de fotografar tudo, ver de mais perto, de achar algum ângulo diferente, de beijar minha esposa e minhas filhas, de aproveitar cada segundo daquela experiência incrível. Depois de algum tempo, a bela e simpática aeromoça começou a levar cada um dos passageiros para a cabine do avião. A vista daquele ponto é ainda mais deslumbrante. Quase senti inveja do piloto que pode apreciar tamanha beleza todos os dias.

E o Monte Evereste? Ele é mesmo lindo? Há algo de especial ou mágico naquela montanha gelada? Claro que é uma emoção diferente ver “o” Monte Evereste, mas, na verdade, todos os picos daquela cordilheira são belíssimos e arrisco a dizer que o Evereste é apenas mais um pico naquela paisagem de cartão postal. Talvez por ser o mais alto ponto do planeta, com seus inimagináveis 8848 m de altura, ele seja especial. Seja como for, com fama ou sem fama, o Monte Evereste é lindo! Valeu!

Para resumir, uma hora de voo é muito pouco. A vontade que se sente é de repetir o voo várias vezes. Para mim, o privilégio de ver aquela paisagem magnífica com a minha família foi algo especial. No final das contas, o medo, a ansiedade e o pavor durante as turbulências não são nada quando comparados ao êxtase que se sente ao ver uma das mais belas paisagem do nosso planeta.  Tive a sensação de ter feito mais uma daquelas coisas que se tem de fazer antes de morrer.

Publicado por: marcelopaniago | 13/11/2011

Chichén Itza – México

Em 2007, numa votação feita por internet, Chichén Itza, localizada na península de Yacatan, no México, foi escolhida como uma das novas 7 maravilhas do mundo. Quatro anos mais tarde, em agosto de 2011, tive de apresentar alguns trabalhos num congresso científico em Cancún e, claro, aproveitei para conhecer esse sítio arqueológico. Para resumir, fiquei de boca aberta. Vou espantar a preguiça e contar um pouquinho do que vi e senti ali.

Chichén Itza está localizada a pouco mais de 200 km daquele famoso balneário e a viagem de ônibus demorou pouco mais de 2 horas. Durante este trajeto, o nosso guia turístico explicou alguns detalhes interessantíssimos sobre a civilização Maia. Por exemplo, o sistema numérico era baseado em múltiplos de 20 (número de dedos – das mãos e dos pés, claro) e todos os números podiam ser representados por apenas três símbolos. Para efeito de comparação, o sistema decimal usa 10 caracteres – 0,1,2,3… 9). É difícil de imaginar como esse sistema funciona, mas depois de ser bem explicado pelo guia, ficou até fácil de entendê-lo.

Além disso, o conhecimento astronômico daquela antiga civilização era assombroso. Só para dar uma ideia, eles eram capazes de prever até eclipses. Imagine o poder que as classes dominantes ou os sacerdotes tinham sobre os “pobres mortais” quando eles “avisavam” que os deuses estavam bravos e que a terra ficaria escura ou que parte da lua sumiria por alguns instantes.

E para culminar, o filme catástrofe “roliudiano” 2012, do diretor Roland Emmerich e estrelado por John Cusack, foi baseado no suposto fim do mundo que teria sido previsto por essa antiga civilização para o dia 21 de dezembro de 2012. Ainda segundo o nosso informativo guia, toda essa polêmica veio do fato de que o dia 21 de dezembro de 2012 marca o final de um ciclo de 5125 anos do Calendário de Contagem Longa Mesoamericano, seja lá o que isso siginificar. Putz, se isso for verdade, só temos pouco mais de um ano de vida.

Depois de duas horas cheias de ansiedade, cheguei a Chichén Itza. Tenho um especial prazer de visitar esses monumentos históricos, pois gosto de “viajar” no tempo e imaginar o dia-a-dia das pessoas naquelas condições. De todas as construções daquele sítio, a mais impressionante é, sem dúvida, o Templo de Kukulcan. Esse monumento, em forma de pirâmide, mede pouco mais de 29 metros de altura e domina completamente a principal plataforma de Chichén Itza. Portanto, a pirâmide não é muito grande e nem tão impressionante como aquelas do Egito, mas há nela simbolismos que a tornam fascinante e única.

Ainda mais interessante é que, durante o equinócio(*) da primavera e do outono, ao entardecer, a luz solar que incide sobre a pirâmide forma vários triângulos que dão a aparência de uma cobra descendo as escadas (foto ao lado). Quando vi as fotos desse fenômeno, fiquei, mais uma vez, de boca aberta. Além disso, há o eco da pirâmide. Deixe-me explicar melhor. Se um pessoa ou um grupo se posicionar diante da uma das laterais do Templo de Kukulcan e bater palmas, o eco que se ouve é de um som parecido com uma ave. Nosso guia, mais uma vez, nos falou que o som é parecido com o canto do ” quetzal”, um pássaro comum na região. Por causa desse fenômeno, a cada minuto, turistas batem palmas diante da pirâmide. Ou melhor, turistas parecem aplaudir a formidável civilização Maia.

Como não poderia deixar de ser, havia centenas vendedores de bugigangas (camelôs) tentando vender aquelas recordações que enchem a mala, pesam pra caramba e, no fim, vai acabar numa gaveta. Camisetas, pratos, tapetes, máscaras diversas, etc. Um dessas bugigangas chamou a minha atenção: um apito que reproduz o som emitido pelo puma, um grande felino comum na região. A todo momento, ouviam-se “rugidos ferozes” naquele lugar. Fiquei imaginando se há algum turista louco para comprar aquilo. Deve haver, claro.

Por essas e outras que Chichén Itza merece o título de uma das 7 novas maravilhas do mundo. Já prometi para a minha esposa e minhas filhas que, se o mundo não acabar no dia 21 de dezembro de 2012, vamos todos visitar Chichén Itza. Assim, só me resta dizer: caba não, mundão!.

(*) Equinócio refere-se ao dia do ano em que o tamanho do dia é exatamente do tamanho da noite. No Brasil , esses dias são 20 de março e 23 de setembro. Em março, o equinócio marca o início do outono e em setembro, o início da primavera. Esse blogue também é cultura! 

A foto usada para ilustar o equinócio no Templo de Kukulcan foi obtida no seguinte endereço:

http://en.wikipedia.org/wiki/File:ChichenItzaEquinox.jpg

Publicado por: marcelopaniago | 23/10/2011

Casas de Pedra – Espanha


Em agosto de 2011, passei minhas férias na Galícia, uma região muito especial na Espanha. Foram duas semanas agradabilíssimas em San Pedro de Trasverea, o pueblo onde meus sogros nasceram. Além da comida fartíssima e deliciosa, dos chorizos e jamons, da constante sensação de ser bem-vindo, me encantei com as casas de pedra.

Aquelas construções rústicas, pequenas e de arquitetura simples pareciam simbolizar a vida dura que as pessoas do campo tinham num passado não muito distante. Segundo os moradores mais velhos daquele vilarejo, as casas eram construídas em mutirões e ficavam prontas em apenas alguns dias. Apesar da rapidez, as casas, construídas com pedras de tamanhos e formatos diferentes, empilhadas e rejuntadas com algum material parecido com cimento, eram muito resistentes. E belas. Para mim, aquelas pequenas casas representam a beleza da simplicidade. Assim, a qualquer oportunidade, eu pegava minha câmera e começava a fotografar aquelas pequenas maravilhas. Os moradores da vila frequentemente me perguntavam porque eu só queria fotografar casas velhas, algumas caindo aos pedaços. Eu só respondia que eu as achava lindas. Desconfio que eles não concordavam comigo.

Isso tudo me fez lembrar uma estória interessante. No verão do ano 2000, estive naquele mesmo pueblo com a minha esposa, minha mãe e a minha filha mais velha, que na época tinha apenas três anos de idade e cachinhos nos cabelos que ainda me fazem querer voltar no tempo. Ficamos hospedados numa dessas casas de pedra. Na realidade, era um pequeno sobrado em que o andar térreo era um estábulo, com as vacas, claro, e os quartos ficam no primeiro andar. Aquele tipo de construção era comum, pois as vacas produziam leite para os moradores e, no inverno, a calor gerado pelos animais aquecia o segundo piso das casas.

No verão, além de leite e calor, as vacas também fornecem moscas e aquele cheirinho forte e peculiar. Depois de passar uns 10 dias naquela casa, decidimos conhecer Lisboa, em Portugal. Pegamos o carro e, depois de viajar 5 ou 6 horas, chegamos ao hotel. Enquanto fazíamos o “check-in”, minha filhota, com toda a ingenuidade que seus 3 aninhos de vida lhe deram e se lembrando do cheiro horrível da casa de pedra, me perguntou: pai, aqui também tem vaca?

Para terminar, aquelas casas de pedra resistiram a tudo. A ventos fortes, a tempestades torrenciais, aos anos. Só não resistiram à modernidade. Pouco a pouco, famílias se mudaram para cidades como Madri ou Barcelona e suas casas ficaram abandonadas e hoje estão em ruínas. Entretanto, o mais comum é ver aquelas belíssimas construções de pedra sendo substituídas, uma a uma, por modernas e confortáveis casas. Acredito que em dez, vinte anos, não haverá uma só casa de pedra. Apenas na minha memória e em algumas fotos amareladas pelo tempo.

Publicado por: marcelopaniago | 02/10/2011

São Paulo: through the eyes of the people

Qual é a definição de pai? Há muitas. Definições legais, poéticas, literárias, bíblicas, realistas, “de botequim” e muito mais. Para mim, pai é aquele cara que baba com as realizações dos filhos e ponto final. Se a minha definição está certa, não fujo à regra e, assim, babo com tudo o que as minhas filhas fazem.

Há algumas semanas, a minha filha mais velha, Ana Clara, de 14 anos de idade, teve, como tarefa escolar, de escrever algumas linhas sobre tráfego em São Paulo, a cidade onde ela nasceu. Nada muito difícil, na minha humilde opinião. Eu teria escrito aquelas obviedades de sempre: horas perdidas, irritação, atrasos, buzinas, motoqueiros inconsequentes, péssimo transporte público e coisas do gênero. Ela, que apenas passou seus primeiros 5 anos de vida naquela metrópole, teve um olhar diferente. Ela preferiu contar como 3 pessoas, em suas rotinas, viveram um dia no pesado tráfego em São Paulo.

Leia o texto, use o Google Translator, se necessário, e me diga se eu não tenho todas as razões do mundo para ficar babando nas minhas filhas.

Leia Mais…

Publicado por: marcelopaniago | 18/09/2011

A Última Refeição

Há mais de dois meses não escrevo uma só linha para este blogue. Falta de tempo, correria, falta de assunto, outras atividades? Que nada. Foi preguiça mesmo. E das boas. Daquelas que não desgrudam. Mas vamos recomeçar.

Bom, um dos vícios que tenho é a leitura. Leio tudo o que cai nas minhas mãos. Livros, revistas, jornais, biografias, trabalhos científicos, quadrinhos, artigos na internet, enfim, tudo. Minhas preferências literárias não são nada muito intelectuais, mas bastante variadas. De Graciliano Ramos a Lobão, de Richard Dankins a Rubem Fonseca, de piadas de Ari Toledo a bula de aspirina. Só não leio livros de auto-ajuda.

Toda esse bla-bla-bla sobre leitura foi só para falar sobre comida. Comida? Sim. Num dos livros que li recentemente, uma dessas bobagens que se compram em aeroportos, (“The Confession”, escrito por John Grisham), o autor fala sobre um jovem que foi condenado à morte e, antes de ser executado, tem o direito a escolher a sua última refeição. Ele escolhe uma pizza de pepperoni e um copo de “root beer”, um refrigerante com gosto de remédio para o fígado. Gosto não se discute.

Depois de ler aquela passagem do livro, fiquei pensando o que eu escolheria se eu estivesse naquela situação. Talvez frango com quiabo e angu, para não negar minhas raízes mineiras. Costelinha de porco?  Bife com batata frita? Frango ao molho pardo? Sei lá. Com tantas coisas deliciosas, eu precisaria de umas dez “última refeição”. Entretanto, se eu tivesse de escolher, eu pediria, hummmmmmmm, deixe-me pensar um pouco mais, hummmmmmmm. Já sei. Eu escolheria pulpo galego com vinho tinto vagabundo.

Pulpo é polvo em espanhol, aquele bicho cheio de tentáculos que habita a imaginação fértil das crianças. Claro que esse polvo não é tão grande e nem feroz quanto aquele das Vinte Mil Léguas Submarinas, de Júlio Verne, e nem tão simpático quanto Paul, o polvo mediúnico da Copa do Mundo. Mas é muito mais gostoso.

Na Galícia, uma região gastronomicamente deliciosa da Espanha, as pulperias, locais especializados em vender os pulpos, são comuns e ficam cheias nas manhãs de sábado ou dias de feiras.  Não sei como são preparados, mas os polvos são cozidos em por um tempão em grandes tachos de cobre e pronto. Acho que é só isso. Talvez coloquem sal na água. Sei lá. Definitivamente, esse não é um blogue de culinária. Depois, os tentáculos são cortados com tesoura e aquelas “rodelas pôlvicas” são temperadas com um pozinho de páprica, conhecido localmente como picante, e regados com muito azeite de oliva. Tudo isso acompanhado de vinho tinto vagabundo e pão.

O sabor? Hummmmmmmm. Não dá para explicar, mas é algo situado entre o delicioso e o inimaginável. Em 2011, tivemos o prazer de passar as férias de meio de ano nas montanhas galegas e comi pulpo feito louco. Minhas filhas e minha esposa Bel, que é umbilicalmente ligada à Galícia, também adoram isso e, assim, passadas rápidas nas pulperias eram parte de nossa rotina de férias. Só de pensar, minha boca fica cheia d’água.

Pronto, depois da minha última refeição, posso morrer feliz. E de barriga cheia…

Publicado por: marcelopaniago | 03/07/2011

Pedalando em Hanói – Vietnã

Em outubro de 2010, escrevi sobre o milésimo aniversário de Hanói, a capital do Vietnã (http://marcelopaniago.wordpress.com/2010/10/05/hanoi-%E2%80%93-1000-anos/)  e, entre outras coisas, mencionei o seu trânsito caótico. E bota caótico nisso. Nas ruas da capital vietnamita, disputam espaço carros, que mostram um pouco da recente prosperidade desse país, táxis, bicicletas, pedestres, motocicletas e motonetas. Não há  dados exatos, mas o número de motos em Hanói é enorme. Com certeza, não se contam aos milhares, mas aos milhões.

Na semana passada, a tive de participar de uma semana intensa de reuniões em Hanói. Reuniões longas e cansativas, números, orçamentos e intermináveis discussões. Na quarta-feira à tarde, uma pausa para relaxar e repor as energias. Foi organizado um passeio de bicicleta. Isso mesmo, fomos disputar com carros, caminhões e motos os escassos metros de rua de Hanói.

A aventura começou em frente ao belíssimo Sofitel Legend Metropole Hanoi, onde estávamos hospedados. Pontualmente à 3 da tarde, pouco mais de 20 corajosos ciclitas estavam ansiosos e prontos para começar a pedalar.

Escolhi a bicicleta, ajustei o capacete e pronto. Já nos primeiros metros do passeio, senti que enfrentar o pesado trânsito de um dia de semana não seria muito fácil. Mas seria extremamente excitante. Passamos por ruas estreitas, disputamos espaço com motos e carros, tivemos alguns sustos e ouvimos incontáveis buzinas. Enfim, experimentamos um pouco da caótica rotina das ruas de Hanói.

O mais interessante é que, em pouco mais de 15 minutos, a paisagem começa a mudar drasticamente.

Saem os carros e a motos, começam as plantações. Desaparecem a correria, a urgência e pressa e entra em cena a vida tranquila de uma cidade do interior. Sim, a poucos quilômetros do centro de Hanói, há uma vida de interior e passear por aquelas ruas estreitas, parecendo uma viagem no tempo, me deu um prazer intenso. As pessoas, talvez pouco acostumadas a tanto movimento, paravam para ver tantos ciclistas por ali. Devem ter ganho o dia.

Também passeamos por alguns belos lagos, passamos em frente aos monumentos mais importantes da cidade e, no final das contas, tive a sensação de que eu vi Hanói de perto. Pedalei por 25 km, senti o calor sufocante do final de junho e descobrir algumas esquinas escondidas daquela capital. Não tenho dúvidas de que foi muito melhor do que ver a cidade de dentro de um carro com ar condicionado, separado da realidade por um vidro.

Como não poderia deixar de ser, um grupo se perdeu. E, claro, eu estava entre os perdidos em Hanói. Não cheguei a ficar preocupado, pois sabia que acharia o caminho de volta para o hotel. Procuramos o guia por diversas ruas e, depois de meia hora, achamos o “coitado”, desesperado de preocupação, pois estava anoitecendo e ele sabia que, à noite, aquelas ruas se tornariam muito perigosas para ciclitas meio inexperientes. Mas tudo terminou sem maiores consequências. Apenas uma queda e alguns arranhões no joelho de uma das participantes.

No sábado, no encarramento da semana de reuniões, o anfitrião e organizador desse passeio distribuiu um certificado muito interessante onde estava escrito:  This Certificate is given to Mr Marcelo Paniago who rode a bike in Hanoi at 6 pm and is still alive!   (Este certificado é dado a Marcelo Paniago que andou de bicicleta em Hanói às 6 da tarde e ainda está vivo!). Definitivamente, isso resume tudo. A vida sem um pouco de risco não tem sabor.

Publicado por: marcelopaniago | 19/06/2011

Bratislava – República da Eslováquia

Bratislava não tem a beleza de Budapeste, o charme de Praga ou a poesia de Viena, mas nem por isso deixa de ser um destino interessantíssimo para uma visita. A capital da República da Eslováquia é cortada pelo belíssimo rio Danúbio, tem castelos e uma bem preservada “cidade velha”. Além de uma atmosfera pulsante. Minha esposa e eu tivemos o prazer de conhecer essa cidade recentemente e vou relatar um pouco do que vimos lá.

O Castelo de Bratislava, considerado o símbolo da cidade, é uma imensa construção retangular e com torres em cada um dos cantos, situado numa colina às margens do Rio Danúbio. Daquele ponto, há uma excelente vista de Bratislava e, dizem, quando o tempo esta bom, até da Áustria e da Hungria. À noite, sua iluminação é muito bem feita e fotos ficam belíssimas. A área ao redor do castelo é bonita e muito bem cuidada, mas, para mim, aquele castelo não é o que se espera de um castelo. Acho que esse tipo de construção tem de ter algo de medieval, como o Castelo de Edimburgo. Não sei explicar, mas é diferente.

A cidade velha é, sem dúvida, a parte mais visitada da cidade. Ali, construções históricas, extremamente bem conservadas, se misturam com bares, restaurantes, cafés, turistas e muita gente bonita. Andar por aquelas vielas centenárias e imaginar a vida num passado distante é um dos prazeres de Bratislava. Há ainda uma parte dessa cidade velha em que alguns prédios não foram totalmente restaurados e isso dá um toque de autenticidade ao local. Além disso, a limpeza daquela região impressiona. Mesmo com tantos turistas e moradores, vi muitos aspiradores para coletar bitucas de cigarro, pois a população fuma muito. À noite, uma atmosfera fervilhante enche aquelas vielas de vida. Bares, casas noturnas e restaurantes cheios e muitas bitucas de cigaros cigarro jogado pelo chão. Mais trabalho para o aspirador.

Espalhadas pela cidade velha, há algumas estátuas pouco convencionais. Há um soldado francês, da época de Napoleão, está encostado num banco da praça central do Centro Histórico e seu chapéu cobre seus olhos, numa das ruelas, há um trabalhador sorridente, com braços cruzados e que parece observar, de dentro de um buraco, o movimento dos pedestres, há um fotógrafo (paparazzi?) fazendo uma foto meio escondido e até um gordinho segurando uma cartola. E, claro, há filas de turistas fazendo pose perto dessas estátuas.

Para contrastar com a cidade velha, existe uma área moderna também situada às margens do Danúbio. Nesse complexo, há um imenso e bem desenhado shopping center chamado Eurovea, diversos bares, cafés,restaurantes e uma uma imensa e bem cuidada área de lazer. Um dos restaurantes, com o sugestivo nome de Leblon, serve um rodízio bem gostoso. Como não poderia deixar de ser, o churrasco foi preparado por um brasileiro, um autêntico gaúcho do Paraná. Matamos as saudades do Brasil num restaurante em Bratislava. Coisas desse mundão globalizado.

E Bratislava tem o rio Danúbio. Que rio bonito. Uma de suas margens é muito bem cuidada e perfeita para uma caminhada, andar de bicicleta, passear de patins e correr. Correr! Não resisti e nos finais de tarde, eu coloquei meu tênis chulezento e fui correr naquela área. Quem gosta desse esporte entende que não se pode desperdiçar uma oportunidade dessas de fazer exercício e desfrutar de uma beleza incomum. Corri 10 km num dia e 12 km no outro. Valeu cada centímetro percorrido às margens do Danúbio. Enquanto eu corria, a Bel desfrutava a possibilidade de ler sentada num banco sob temperatura amena. Esse pequenos prazeres é que dão cor à vida.

Como não poderia deixar de ser, há várias pontes que cruzam o rio Danúbio. A mais imponente delas é a Ponte Nova, construída entre 1967-1972. Essa ponte tem um aspecto futurístico que, obviamente, contrasta com as históricas construções da cidade velha que fica localizada perto dali. Mas é bonita. No alto da ponte, há um observatório e um restaurante. Daquele ponto, a vista de Bratislava é muito bonita, mas não espetacular. Entretanto, a vista do castelo de Bratislava, perfeitamente iluminado, e localizado diretamente em frente da ponte, vale os € 6,50 do ingresso.

Mesmo com tantos atrativos, o melhor de tudo foi alugar uma bicicleta num ensolarado domingo de primavera e ir percorrer os 12 km entre Bratislava e o castelo de Devin. Aproximadamente ⅓ do percurso é feito numa ciclovia às margens do Danúbio. É uma paisagem linda. O restante é feito numa estrada sem acostamento. Mas não há perigo. Há várias bicicletas fazendo aquele trajeto e os carros respeitam os ciclistas. É só ir devagar, no cantinho e ter atenção.

O castelo de Devin, ou o que restou dele, fica situado no alto de uma colina exatamente na confluência dos  rios Danúbio e Moravia. Nem é preciso dizer qua a vista é magnífica. Além disso, aquelas ruínas trazem um sentimento de volta ao passado e é impossível não tentar imaginar como as pessoas viviam ali. Ainda há um pequeno museu com uma exposição de armamentos usados nas guerras daquele período. A exposição é simples, mas é o bastante para transportar o visitante para uma época em que as sangrentas guerras eram travadas em campos de batalha e não apertando botões em escritórios com ar condicionado.

Depois da visita, com uma fome de leão, a melhor pedida é comer assados no Bufet Istria, um pequeno restaurante perto do castelo. Comemos o grillované reblerko ou costelinha de porco defumada que estava de lamber os beiços.O único problema foi pedalar de volta para Bratislava depois de comer feito um cavalo.

Outro aspecto de que vou me lembrar para sempre é a beleza das mulheres de Bratislava. Definitivamente, aquela cidade tem mulheres lindíssimas. Quase tão lindas quanto minha esposa, uai!

MAIS ALGUMAS FOTOS:

Castelo de Bratislava à noite. Bela iluminação refletida no Rio Danúbio

Ruela da cidade velha em Bratislava

Uma das muitas ruelas da cidade velha

Praça central da cidade velha

Outro ângulo da praça central da cidade velha

Artista de rua. Este cara parecia flutuar.

Caricatura em 10 minutos. Artistas de rua estão por todos os lados.

Grandes aspiradores para as bitucas de cigarro. A cidade velha é limpíssima.

Estátua de um trabalhador observando o movimento da rua. Interessante, né?

Dois paparazzis?

Estátua do soldado francês.

Esta estátua homenageia um antigo e simpático morador de Bratislava

Bonito prédio da “Opera House”

Palácio de Grassalkovich

Ponte Nova com sua arquitetura moderna e observatório no topo

Prazer inigualável por correr nas belas margens do Rio Danúbio.

Merecida água depois do treino

Bel lendo enquanto eu corria

De bicicleta para o castelo de Devin – o melhor de Bratislava

Bel andando de bicicleta indo para o castelo de Devin

Pedalando na estrada. Atenção e andar no acostamento.

Mais atenção...

Enfim, o Castelo de Devin

Ruínas do Castelo de Devin

Uma das torres de observação do castelo

Vista do Castelo de Devin – Rios Danúbio e Morávia

Pausa num café em Bratislava. Quando vamos voltar a esse lugar maravilhoso?

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