Publicado por: marcelopaniago | 08/11/2009

A Ver Navios … 2

Em março de 2008, visitei uma área de desmanche de navios em Chittagong, Bangladesh, e relatei aquela experiência na postagem A Ver Navios…, publicada em abril (http://marcelopaniago.wordpress.com/2009/04/05/a-ver-navios).

Mais recentemente, a revista Time do dia 5 de outubro de 2009, em edição especial sobre os Heróis do Meio Ambiente, publicou uma reportagem assinada por Krista Mahr a respeito da advogada Syeda Rizwana Hasan e de sua luta contra a indústria de desmanche de navios naquele país. Hoje, vou transcrever a matéria publicada naquela revista. A tradução não é perfeita, mas tentei ser o mais fiel possível ao texto.

Navio

A cada manhã, nas praias de Chitagong, cerca de 15000 homens vão para o trabalho sabendo que eles podem morrer naquele dia. Em turnos de 16 horas, os trabalhadores da maior zona de desmanche de navios de Bangladesh são enviados, quase sem proteção ou treinamento,  para navios velhos vindos de outra nação qualquer para desmontá-los à mão. Dentro dos navios, eles enfrentam uma densa fumaça preta proveniente dos maçaricos usados para cortar o metal, gases instáveis, asbestos, chumbo e mercúrio. De acordo com algumas estimativas, um desmontador de navios morre todos os dias devido a explosões, fogo ou por ser atingido por metais nos estaleiros do sudeste da Ásia. Aqueles que sobrevivem enfrentam maior risco de câncer e outras doenças. A maioria dos desmontadores de navios trabalham por 5 ou 6 anos antes de retornar para suas vilas, jovens homens velhos, muito desgastados ou doentes para poderem se sustentar.

Syeda Rizwana Hasan, 41, é uma das poucas advogadas para esses homens – e as praias onde os navios contaminados vão parar. Como Chefe-Executivo da Associação dos Advogados Ambientalistas de Bangladesh (BELA*) nos últimos 6 anos, Hasan tem lutado para trazer melhores regulamentos ambientais e trabalhistas para as 36 áreas de desmanche de navios onde, ela diz, “ninguém está presente” para assugurar que as leis trabalhistas sejam seguidas ou as normas internacionais contra despejo de lixo tóxico sejam obedecidas. Enquanto os cerca de 150 navios que passam pelos desmanches todos os anos geram os tão necessários renda e empregos para Bangladesh, Hasan diz que o governo não tem “levado em consideração o outro argumento: é melhor estar desempregado do que ter um emprego que irá lhe causar câncer.”

O trabalho de Hasan nunca foi tão importante. Como o comércio global diminuiu no ano passado, as companhias “aposentaram” mais e mais navios e os enviaram para serem desmanchados. Os crescentes custos ambientais e trabalhistas já estavam fazendo com que empresas na França, Grécia, Japão e Holanda, entre outros, terceirizassem mais esse trabalho difícil. Esse negócio extra tem aumentado o número de crianças trabalhadoras. Um quarto da força de trabalho dos desmanches de navios de Bangladesh tem menos que a idade legal permitida para trabalhar que é de 18 anos, de acordo com Muhammed Ali Shahin, da ONG Plataform on Shipbreaking com sede em Bruxelas. “Crianças são mais fáceis de serem exploradas” diz Shanin. “Você pode forçá-las a fazer o que você quiser”.

O impacto ambiental é não menos dramático. Em 2003, Hasan pediu à Suprema Corte de Bangladesh para certificar que todos os navios que entrassem no país para serem desmontados estivessem livres de toxinas. Em março, a corte ordenou o fechamento de todos os desmanches que estivessem operando sem a licença ambiental do governo – em outras palavras, todos eles.  A corte também impôs novas restrições ordenando que navios identificados como contaminados com produtos químicos danosos fossem impedidos de entrar em Bangladesh; todos os navios permitidos têm agora de ser “pré-limpos” para toxinas.

Essas vitórias – e o fato de que Hasan ganhou um prêmio Goldman esse ano – têm incomodado os inimigos da ativista. Hasan e Shahin viram cartazes em alguns desmanches ameaçando “quebrar os ossos” daqueles que lutam por regulamentos mais rigorosos. A Suprema Corte também voltou atrás com relação à sua própria decisão a respeito dos desmanches que não seguem a legislação – uma decisão que Hasan está lutando contra na corte de apelações. Ela parou de visitar os desmanches por causa dos riscos, mas diz que as ameaças dos oponentes não vão fazê-la parar. “Eu não quero que o mundo pense em Bangladesh como um depósito de lixo”, ela diz. “Isso é contra minha dignidade. Isso é contra a dignidade da minha nação e a dignidade das pessoas”.

* BELA – Bangladesh Environmental Laywers Association

Publicado por: marcelopaniago | 01/11/2009

Climbathon 2009 – Malásia

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Climbathon é uma meia maratona (21 km) realizada anualmente na Malásia. A diferença é que essa prova consiste em subir, ou escalar, e descer o Mount Kinabalu, a mais alta montanha do país, com 4095 m de altura. Assim, essa corrida é descrita como a mais dura prova de montanha do mundo e, em 2005, ela se tornou parte do calendário oficial do campeonato mundial de Skyrunning, promovido pela Federação de Esportes de Altitude.

Há alguns anos, vi numa revista de bordo da Malaysian Airlines uma reportagem sobre essa corrida. Claro que fiquei interessado em participar desse gigantesco desafio, mas eu nunca me senti preparado o bastante para enfrentar aquela montanha. No final de julho de 2009, depois de retornar para a Malásia (das minhas férias no Brasil), decidi que eu iria participar da 23a  edição da Climbathon no dia 24 de outubro. Comecei os treinos exatamente no dia 28 de julho e, assim, eu tive 88 dias para me preparar para tal desafio.

Antes mesmo da prova, enfrentei alguns problemas para conseguir treinar. O primeiro deles foi conciliar os treinos com minhas constantes viagens (parte de minhas atividades profissionais) e o segundo, e mais difícil, foi conciliar os treinos com as minhas longas jornadas diárias de trabalho. A primeira parte foi até simples de resolver. Apenas levei meu tênis e treinei nas esteiras das academias dos hotéis onde eu me hospedava. A segunda parte foi bem mais complicada. Como não havia jeito de diminuir a carga de trabalho, tive de “aumentar” o meu dia. Em outras palavras, tive de reduzir minhas preciosíssimas horas de sono para treinar de madrugada. Isso foi terrível, mas não havia alternativa.

Durante aqueles 88 dias, fiz 55 treinos e corri, em esteiras ou nas ruas, 540 km. Uma média de quase 10 km por treino. Nesse período, tive duas pequenas lesões que me forçaram a ficar quase duas semanas sem treinar. Além das lesões, tive muita preguiça. Muita mesmo. Mas, no final das contas, eu cumpri o meu plano de treinos e me sentia razoavelmente bem preparado para vencer aquele desafio. Eu tinha três objetivos em mente: atingir o pico do Mount Kinabalu, terminar a prova dentro do tempo limite e, por fim, voltar para casa inteiro. 

Climbathon - Malasia

Subindo o Mount Kinabalu

No dia 23 de outubro, viajei com a Bel e as minhas filhas para o outro lado da Malásia, na ilha de Bornéu. Ansiedade pura. Eu mal podia esperar pelo início da prova. No dia 24, acordei às 4 da manhã e um carro da organização me levou até a base da montanha. Mais ansiedade. Pontualmente às 7 da manhã, a largada foi dada. No início da prova, como não sabia o que vinha pela frente, comecei de forma lenta. Fui aumentando gradualmente o ritmo. Alguns quilômetros mais tarde, já no meio da subida, eu estava esgotado. As dores se espalhavam pelo corpo e várias vezes eu pensei: o que eu estou fazendo aqui? Em alguns pontos, as subidas eram tão íngremes que não acreditava que eu poderia vencê-las. Quando eu estava me aproximando do pico, a 4 mil metros de altura, o cansaço somou-se à menor pressão de oxigênio e eu me senti à beira da exaustão. Eu sabia que tinha de continuar para atingir o pico dentro do tempo limite. Senti até algumas tonturas, mas ver que eu estava tão perto do pico me fez continuar. E continuei.

Ultimos metros

Os últimos metros da Climbathon 2009

Quando atingi o ponto mais alto da Malásia, tive alguns instantes de pura felicidade. É difícil explicar a magia daquele momento. Eu apenas gritava “consegui!”,  “I made it”, “consegui”! Observei por alguns segundos aquela lindíssima paisagem, respirei fundo, e, antes começar a descida, pensei: agora é moleza. É só voltar para casa. Puro engano. A descida é muito mais difícil que a subida. No início, foi tudo bem. Depois de algum tempo, comecei a sentir fortes dores nos músculos anteriores das coxas. Quanto mais eu descia, mais a dor se intensificava. Eu tinha vontade de me sentar e esperar que aquele pesadelo acabasse, mas eu tinha de continuar. Eu descia o mais rápido que eu podia e a base da montanha nunca chegava. Cada passo era uma tortura e eu gemia: ai, merda, ai, ai, merda, ai. Nos últimos quilômetros, eu quase não conseguia andar, mas eu tinha de correr. E corri. Não sei de onde tirei forças, mas terminei a prova. Outra onda de felicidade me invadiu. Dessa vez, pude compartilhar aquele momento único com minha esposa e filhas. Essas memórias ficarão comigo para sempre.

Explosão de felicidade na chegada

Explosão de felicidade na chegada

Entre os 201 participantes da minha categoria, fiquei em 44o lugar com o tempo de 6 horas e um minuto. Entretanto, o mais importante é que voltei para casa inteiro. Apesar das dores que sinto enquanto escrevo esse relato, já estou pensando no próximo ano. Deve ser sadismo. Ah! Fiquei em primeiro lugar entre os brasileiros. E em último também.

Meus maiores incentivadores

Minhas maiores incentivadoras

Publicado por: marcelopaniago | 25/10/2009

Boxe Tailandês

Boxe Tailandes

Quando um gringo visita o Rio de Janeiro, é quase certo que ele assistirá a algum show de samba, irá ao Maracanã, tomará um monte de caipirinhas na beira da praia e até mesmo visitará a Rocinha. Da mesma forma, quando se visita Bancoc, na Tailândia, há alguns programas quase obrigatórios e um deles é assistir a uma luta de boxe tailandês. 

Em outubro de 2005, durante uma de minhas visitas de rotina àquele país, comentei com meu amigo Kreangkrai que eu gostaria ver uma dessas lutas e ele se ofereceu para me levar até lá. Aceitei prontamente. Compramos os ingressos. Primeira fila, claro, para poder observar todos os detalhes. Chegamos cedo, entramos no ginásio e esperamos um pouco. Haveria várias lutas no programa daquela noite e o público era razoável. Eu queria observar a atmosfera que cerca esse tipo de evento.

Enfim, depois de algum tempo, as lutas começaram. Em cada uma delas, os lutadores entravam no ringue, movimentavam-se freneticamente por todos os cantos e faziam uma espécie de ritual. O turista e o boxeadorParece que rezavam e pediam proteção. Quando a luta era iniciada, havia chutes, socos, mais chutes e até um pouco de sangue. Como no boxe tradicional, as lutas são divididas em “rounds”. A cada intervalo, os treinadores passavam algumas instruções para seus pupilos e a pancadaria continuava. Mais chutes e mais socos. No final das lutas, um dos lutadores era proclamado o ganhador. Naquela noite, houve somente um nocaute. Um dos lutadores perdeu os sentidos e teve de ser socorrido pelos médicos de plantão. Após assistir a alguns combates, fiquei com a impressão de que esse esporte é até mais violento que o boxe tradicional. Por fim, depois de terminadas as lutas, os turistas eram levados aos camarins para conhecer os lutadores e tirar algumas fotos com eles. E comigo não foi diferente. Fui levado até lá e fiz a foto. Claro que se paga alguma coisa para ter essa recordação.

Naquela noite, meu amigo me contou uma estória bastante interessante Parinya Charoenpholque aconteceu com um lutador de boxe tailandês. Um menino chamado Parinya Charoenphol, popularmente conhecido como Nong Thoom, depois de viver um curto período como um monge budista, decidiu ser boxeador. Seu objetivo era ganhar dinheiro para ajudar sua família e pagar a cirurgia de mudança de sexo. Sim, ele queria se tornar uma mulher. A sua vida começou a mudar quando, em fevereiro de 1998, ele conseguiu uma vitória no Lumpini Boxing Stadium em Bancoc, considerado o templo máximo desse esporte. A imprensa local ficou intrigada com a aquela situação: um garoto de 16 anos, usando maquilagem, ganhando de um oponente muito mais musculoso e, depois da vitória, beijando-o na face. Ele ganhou notoriedade e suas lutas passaram a atrair mais e mais gente.

ParinyaEm 1999, Nong Thoom abandonou os ringues e se submeteu à cirurgia de mudança de sexo. Mais recentemente, em 2003, essa estória virou um filme chamado “A Beautiful Boxer”.  Com certeza, a mocinha aí do lado é boa de briga. Quem vai querer encarar?

 

Fotos de Parinya Charoenphol:

http://en.wikipedia.org/wiki/parinyacharoenphol

http://thestar.com.my/lifestyle/story.asp?file=/2005/7/12/lifeliving/11304637&sec=lifeliving

Publicado por: marcelopaniago | 18/10/2009

Viagens de Trem

O Grande Bazar FerroviarioEm 1975, um sujeito meio maluco chamado Paul Theroux, apaixonado confesso por trens, decidiu viajar pela Ásia usando apenas esse meio de transporte. Saindo de Londres, ele passou países tão diversos como Turquia, Irã, Paquistão, Índia, Vietnã, Malásia, Japão e outros, terminando essa imensa jornada, depois de mais de três meses, a bordo do famoso Expresso Transiberiano. Ele descreve, com detalhes, essa viagem no livro O Grande Bazar Ferroviário – De Trem pela Ásia, publicado pela Editora Objetiva. Recentemente, li esse livro e, enquanto eu saboreava aquelas narrativas, comecei a pensar sobre as viagens de trem que eu já havia feito. Não são muitas nem tão interessantes quanto aquelas descritas no livro, mas vou aqui relatar algumas.

Minha primeira viagem de trem aconteceu precisamente no dia 25 de abril de 1999. Naquele dia, eu viajei de Londres a Paris. Alguns anos antes daquela viagem, em maio de 1994 para ser exato, uma ferrovia ligando essas duas capitas europeias, que passava por sob as águas geladas do Canal da Mancha, havia sido inaugurada. EurostarIsso obviamente ganhou as manchetes mundiais. Cinquenta quilômetros debaixo do mar. Claro que esse fato estimulou a minha imaginação. Comprei a passagem para o Eurostar e fui para a imensa Vitoria Station. Ansiedade pura. Aquela seria a primeira vez que eu iria a Paris e, ainda por cima, nesse trem. Embarquei. Num acento na janela, pois eu queria ver tudo. Tudo mesmo. Na hora H …. Tchan, tchan, tchan! Eu não vi absolutamente nada. Nada mesmo. Eu apenas sabia que o trem estava dentro de um túnel. E foi isso. Que decepção. Só escuridão, nada mais. Bom, para compensar, Paris foi uma maravilha. Um dia eu conto essa experiência.

Pouco mais de um mês depois, no dia 01 de junho de 1999, eu estava em Roma, na Itália, e resolvi viajar para Veneza de trem. Fui para a estação e, com a ajuda de um primo italiano, comprei a passagem. Na hora de embarcar, entrei no trem, achei minha cabine e esperei. Havia mais quatro ou cinco pessoas ali. O trem começou a andar e eu “pendurado” na janela para não perder um detalhe sequer daquela viagem. Algum tempo depois, um “simpático” cobrador veio conferir as passagens. Eu, naturalmente, mostrei a minha. Ele olhou para o bilhete e começou a falar algo comigo. E não conseguia entender nada. Niente!!! Aquela língua não era nada parecida com o italiano “falado” na novela das oito. O cara estava ficando cada vez mais nervoso, seu tom de voz cada vez mais exaltado e eu, mais assustado. Alguma coisa estava errada. Eu tentando me comunicar em inglês e português e nada. Até que um dos passageiros me explicou, num inglês bem macarrônico, que eu deveria ter validado meu bilhete antes de embarcar e, como não fiz isso, o simpático bilheteiro estava dizendo que eu teria de pagar outro ingresso. Eu pedi a ele que explicasse àquele senhor que eu não sabia disso e que eu gostaria de me desculpar pelo meu erro. Bom, ele aceitou minhas desculpas, perfurou meu bilhete, falou mais algumas palavras que eu não entendi (mas posso imaginar o significado) e saiu da cabine. Belo início de viagem. Mas aprendi uma lição: nunca mais vou me esquecer de validar um bilhete de trem. Além disso, visitar Veneza vale qualquer contratempo. Mais uma experiência para ser contada aqui.

TGV - FrancaNa Europa, viagens de trem são muito comuns. Na França, por exemplo, o trem TGV (Train à Grande Vitesse ou Trem Rápido, na língua de Camões) é confortável, veloz, muito prático e nunca atrasa. A não ser quando os franceses fazem greve. E meus amigos franceses sempre me dizem que a greve é o esporte nacional. Será? Bom, eu nunca enfrentei um atraso sequer no TGV naquele país. Quando a Bel e eu viajamos de Budapeste para Viena, em outubro de 2008, utilizamos o trem. Nada demais. Viagem rápida, confortável e sem sobressaltos. Nada digno de nota, mas é sempre interessante ter à disposição um meio de transporte barato, seguro, rápido, pontual e eficiente. Coisas do primeiro mundo.

Na China, ja fiz algumas viagens de trem e até descrevi duas delas no post Diário de Viagem – China, publicado em junho. Trem na ChinaO mais interessante daquelas longas viagens foi observar o comportamento dos chineses. Eles andam constantemente pelos corredores, fumam incessantemente nas conexões entre os vagões, falam alto como se estivessem sozinhos no trem, bebem, comem, fumam mais uma vez entre os trens, cospem por todos os lados. E eu simplesmente me divirto com tudo isso, pois é mais uma oportunidade de observar uma cultura tão diferente. Sempre que meus colegas chineses me perguntam se eu quero viajar de avião ou trem, eu não tenho a menor dúvida. Não sou louco por trens como Paul Theroux, mas algumas viagens de trem são simplesmente imperdíveis.

Trem bala - TaiwanNuma outra oportunidade, dessa vez em Taiwan, em junho de 2008, depois de fazer uma palestra em Tainan, uma cidade localizada no sul daquela ilha, tive de voltar rapidamente para Taipei, no extremo norte do país, para pegar meu voo de volta para Kuala Lumpur. Não haveria tempo para a viagem de carro e então decidimos voltar de trem. Para minha surpresa, era um trem-bala capaz de atingir velocidades acima de 300 km/h. O interessante é que não se sente nada dentro do trem, apenas a paisagem passando muito depressa pela janela. Foi uma viagem bem rápida e confortável. Gostei muito daquela experiência.

Infelizmente, para nós, brasileiros, viajar de trem não é comum. Na verdade, trem no Brasil é sinônimo de transporte de cargas e de escândalos na interminável Ferrovia Norte-Sul. Contudo, esse meio de transporte deveria ser mais usado no nosso país, pois, além de seguro, é rápido e barato. Há alguns anos, o governo brasileiro anunciou a construção de uma ferrovia com trem-bala entre as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Espero que esse projeto não se transforme noutra Norte-Sul. Se isso acontecer, os únicos trens do Brasil continuarão em Minas Gerais. Quem nunca ouviu um mineiro dizer que tem um trem dentro do olho?

Publicado por: marcelopaniago | 11/10/2009

De Carro entre Islamabad e Lahore – Paquistão

Imagine uma situação em que você esteja em Islamabad, capital do Paquistão, e tenha uma palestra marcada em Lahore, a segunda maior cidade daquele país. A passagem de avião já está comprada e, de repente, você é avisado de que viagem será feita de carro, pois há rumores de que alguma ação terrorista está sendo planejada para acontecer em Lahore e que estrangeiros são os alvos preferenciais desses ataques. Assim, é recomendável  evitar locais como aeroportos, praças e mercados.

Parece brincadeira, mas isso aconteceu comigo há duas semanas, mais precisamente no dia primeiro de outubro de 2009. Claro que o primeiro impacto foi bastante negativo, pois senti que eu não estava em segurança no Paquistão. Depois, comecei a gostar da idéia, pois seria mais uma oportunidade de ver o interior daquele país.

Rodovia - PaquistaoSaímos do hotel às 7 da manhã. Minha primeira surpresa foi com a estrada em si. Na verdade, uma rodovia belíssima, muito bem sinalizada (placas escritas em inglês e em urdu, a língua local), com 3 pistas de cada lado, divididas por uma barreira de concreto, e, mais importante, extremamente bem conservada. De forma geral, a rodovia estava vazia. Poucos carros, alguns caminhões e quase nenhum ônibus.

Placas de sinalizacao Placas de sinalizacao 2

A paisagem começa árida e, aos poucos, vai se transformando em verde. Há plantações de tudo. Laranja, milho, trigo, arroz e algumas outras culturas que nunca havia visto na vida. Havia também muita terra sendo preparada para o plantio de amedoim e mostarda. Uma terra  avermelhada e, sem dúvida, fértil.

Depois de uma hora de viagem, há uma descida bastante acentuada com curvas muito fechadas. Claro que aquilo é uma armadilha para alguns caminhões velhos e, por coincidência, havia um deles tombado na margem da rodovia. Por causa disso, o limite de velocidade naquela ponto é de 50 km por hora. Havia até dois policiais com radar esperando por motoristas mais apresssadinhos. Naquela parte da estrada, as montanhas rochosas lembram as paisagens de filmes de bang-bang. Apesar dessas montanhas, o relevo entre Islamabad e Lahore é bastante plano.

Durante a viagem, vi uma tribo de nômades que vive como seus ancestrais viviam há mil anos. Casas muito rudimentares, pequenos rebanhos de ovelhas e pequenas plantações. Vi também casas de barro muito típicas daquela região. Até mesquitas, para não nos esquecermos de que estávamos no Paquistão. Pena que eu não tive tempo de apreciar tudo como eu gostaria. Fazer fotos, visitar as vilas, conversar com as pessoas. Infelizmente, eu não estava de férias e tinha uma palestra para fazer. Ossos do ofício.

Parada para descansoPara descansar um pouco, paramos num desses postos de abastecimento de combustível e restaurante na beira da estrada. Mais uma boa surpresa. O restaurante era bastante limpo, o atendimento bom e o ambiente agradável. Sentamos numa mesa e pedi café. Depois de alguns minutos, um café horrível  foi sevido, mas bebi assim mesmo. Voltamos para o carro e continuamos a viagem.

Passamos por três grandes rios durante essa viagem: os rios Jhelum, Chenab e Ravi. Havia algo em comum entre eles: estavam quase secos. Segundo meu anfitrião, os rios ficam secos nessa época do ano, mas na estação chuvosa o nível da água aumenta consideravelmente. Entretanto, há outras razões para essa terrível situação. No rio Chenab, por exemplo, a causa da falta de água são duas represas que o governo da Índia construiu enquanto esse rio atravessa seu território. Consequentemente, a água já não flui como antigamente. Nesse caso específico, o desenvolvimento para a Índia significa um pesadelo para o Paquistão. O mais interessante é que, mesmo quase sem água, há vários canais para irrigação no Chenab e isso também é apontado como uma das causas para o baixíssimo nível de suas águas. Eu já havia lido sobre o grave problema de escassez de água no Paquistão, mas ver a situação de perto me fez ver uma dimensão completamente diferente do problema. Aquilo é uma catástrofe em construção.

Depois de percorrer os 367 km da Motorway M2, chegamos a Lahore. Para sair da rodovia, pagamos o pedágio. Mais uma surpresa. O valor foi 180 rupias paquistanesas ou cerca de R$ 3,90.  No Brasil, para percorrer os 165 km da viagem entre Rio Claro, onde eu morava, e São Paulo, o valor desembolsado é de R$ 21,70. Fazendo algumas contas rápidas, chega-se à conclusão de que o pedágio no Brasil é mais de doze (12) vezes mais caro por quilômetro rodado. No Paquistão há terrorismo, nas rodovias de São Paulo, “roubo à mão desarmada”. Salve-se quem puder!

 

Post Scriptum:

No dia 05 de outubro, enquanto eu escrevia esse relato, um homem-bomba expodiu no escritório das Nações Unids em Islamabad, matando 5 pessoas. Na sexta-feira, dia 9, um suicida explodiu o veículo em que estava, perto de um mercado lotado em Peshawar, no noroeste do Paquistão, matando 49 pessoas e deixando mais de 100 feridos. Não há palavras para descrever tamanha brutalidade, estupidez, intolerância, insensatez, violência.  Até quando esse tipo de coisa vai acontecer?

Publicado por: marcelopaniago | 04/10/2009

Lijiang e Monte Yulong – China

Monte Yulong

Hoje, vou contar a estória do dia em que eu cheirei um gás, fiquei tonto, senti calafrios e, no final, atingi as alturas. Tudo começou em março de 2007, quando fui fazer uma palestra em Kunming, capital da província de Yunnan, no sul da China. Terminados os compromissos de trabalho, meus colegas de empresa me convidaram para conhecer a parte mais turística daquela região.

Canais de Lijiang a noiteAssim, de Kunming voamos para Lijiang. Essa cidade, que foi incluída na lista de Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO em 1996, tem uma história de mais de 800 anos e era importante para o comércio de chá. Ao contrário de outras cidades chinesas, Lijiang não tem muros e sua disposição é peculiar. As quatro principais ruas desembocam numa grande e bonita praça e há canais com águas esverdeadas por toda a cidade velha. Eu nunca havia visto nada parecido. A conservação é extremamente bem feita. Na verdade, achei “bem feita demais”. Parece que foi até reconstruída. Outra coisa meio estranha é ver uma cidade histórica com tantos luminosos de bares e muita agitação. Mais ou menos como acontece em Ouro Preto. Apesar desses pormenores, foi uma experiência muito interessante.

Lijiang a noite - Agito

Monte Yulong 2Mais interessante ainda é que Lijiang situa-se aos pés do Monte Yulong, uma cadeia de montanhas que fica coberta de neve durante o ano inteiro. Esse foi o destino seguinte de nossa pequena viagem. Acordamos cedo, tomamos um rápido café da manha e fomos para aquelas montanhas com os picos brancos de neve. Na entrada do parque, onde os ingressos são comprados, vi que algumas pessoas alugavam casacos vermelhos muito grossos e pesados. Já comecei a sentir frio. Perguntei ao Jeff se eu deveria alugar um e ele, sem a menor hesitação, me disse que não. Acreditei no meu amigo.

Entramos de novo no ônibus e fomos para a base do Monte Yulong. Ali, há um teleférico que liga essa base, localizada a 3.356 m de altura, até quase o topo da montanha, a 4.506 metros. A subida é feita em aproximadamente 10 minutos. Muito rápido, portanto. A paisagem é linda. Montes cobertos de neve de um lado e um vale espetacular do outro. Um cenário tão magnífico que até espantou meu medo de altura.

Muita neve e muito frioEnfim, cheguei ao topo. A primeira sensação ao chegar a 4.500 m de altitude é uma pequena tontura devido à baixa pressão de oxigênio. É apenas um desconforto momentâneo, mas posso dizer que não é agradável. Depois de sentir essa tontura, entendi porque um spray com oxigênio é fartamente vendido naquela área. Eu não comprei, mas experimentei umas “fungadas” do tubo do meu colega e o alívio foi imediato. Ahhhhhh!

Daquele ponto, a beleza é indescritível. Quando vi a quantidade de neve na montanha, senti de que não deveria ter confiado no meu amigo Jeff. Eu estava congelando, mas muito feliz por estar ali. Bom, no alto da montanha, não havia muito mais o que fazer a não ser sentir frio e observar aquela paisagem privilegiada. Havia, sim, uma espécie de tobogã no gelo. Kevin e eu descemos num pneu e foi muito bacana. A velocidade que aquilo atinge é impressionante e eu, como sempre, fazendo fotos. Adrenalina e diversão pura. Perto de um marco com a altura do Monte Yulong, caiu a ficha de que aquele era o ponto mais alto que já estive na miha vida, a 4.506 m. Foi uma sensação interessante.

4506 m de altura

Aquela também foi a primeira vez que vi uma geleira (glacier) na minha vida. GeleiraGeleiras são imensos blocos de gelo que são formados quando a neve cai por anos seguidos, permanece no mesmo local por tempo suficiente para congelar e consequentemente são comprimidas em grandes e grossas massas de gelo. No Monte Yulong, há 19 geleiras numa área total de 11 km2 e esses são os blocos de gelo localizados mais ao sul do hemisfério norte.

Depois de passar aproximadamente duas horas naquela área, decidimos voltar para a base da montanha. Foi definitivamente uma experiência fantástica.

Muita neve

Bom, para terminar, releia a primeira frase dessa narrativa. É engraçado, mas eu realmente senti tonturas, quase congelei de frio, aspirei o oxigênio e estive no ponto mais alto em toda a minha vida. Você pensou em algo diferente?

Até a próxima semana!

 

MAIS ALGUMAS FOTOS:

Noite em Lijiang

Noite em Lijiang

 

Ruas estreitas

Ruas estreitas

 

Lijiang à noite

Lijiang à noite

 

Yak e o Monte Yulong

Yak e o Monte Yulong

 

Casa encoberta de neve

Casa encoberta de neve

 

Máscara de oxigênio

Máscara de oxigênio

 

Adrenalina pura

Adrenalina pura

Publicado por: marcelopaniago | 27/09/2009

Os Pirineus

Chegando aos Pirineus

Em fevereiro de 2008, tive a oportunidade de visitar, com alguns amigos, a cidade de Lourdes, na França. Foi nesse local que Nossa Senhora supostamente apareceu 18 vezes para a jovem Bernadette entre os dias 11 de Fevereiro e 16 de julho de 1858. Já comentei sobre isso no post Turismo Religioso, publicado em maio. Visitar Lourdes foi muito interessante, mas visitar aquela cidade no inverno teve duas grandes vantagens. Primeiro, não havia muitos turistas no local e segundo, e mais importante para essa narrativa, Lourdes fica localizada aos pés dos Pirineus, a cordilheira entre a França e a Espanha. Claro que aquela seria uma ótima oportunidade para subir as montanhas e desfrutar as delícias da neve.

Pirineus - Entre a Franca e a EspanhaAssim, depois da visita ao Santuário, viajamos durante algumas horas por estradas íngremes e cheias de curvas até chegarmos a uma pequena estação de esqui. A viagem, em si, foi espetacular. A cada local bonito, parávamos os carros para apreciar a paisagem e, claro, fazer fotos. Depois de várias paradas, chegamos, enfim. Muito frio, neve por todo lado. Não tivemos dúvidas e fomos direto para o restaurante comer algo. Ainda me lembro do sabor delicioso do chocolate quente que tomei naquele lugar. Comi também um enorme e saboroso sanduíche de presunto parma. Depois de encher a pança, fomos desfrutar de algumas das atividades disponíveis naquela pequena estação de esqui.

Bom, eu não sei esquiar e nem tentei aprender. Mas havia algumas atividades para os “menos qualificados” como eu. Uma delas era descer uma encosta sentado num trenó. Na verdade, era apenas um pedaço de plástico e meus amigos me disseram que aquilo é popularmente conhecido como “ski-bunda”. Não sei se é verdade ou se fizeram piada comigo, mas eu quis experimentar aquela coisa. Eu me preparei, escolhi uma descida bem grande e pronto. Não demorou muito e caí. Para resumir, foram alguns tombos, muitas gargalhadas e alguns pequenos arranhões, mas o ski-bunda foi muito divertido. Minhas filhas teriam adorado, com certeza.

Ski-bunda Pequeno acidente 2

Havia também um “brinquedo” que consistia basicamente em um cabo de aço esticado entre dois pontos e um maluco disposto a descer pendurado numa espécie de gancho. E, naquele dia, havia vários malucos dispostos a enfrentar o vento gelado na face. Eu sabia que não havia perigo algum, mas a velocidade que aquela coisa atinge é incrível. Na minha primeira descida, tive até a sensação de que o gancho não iria parar e eu iria me arrebentar no segundo poste. Não sei explicar, mas há um sistema de freio muito eficiente e, portanto, não quebrei a cara no poste! Gostei da aventura e repeti a dose. Minhas filhas também teriam gostado desse brinquedo.

Tirolesa 2

Depois dessas brincadeiras no parque, decidimos fazer uma caminhada pelas montanhas geladas. Subimos, descemos, subimos de novo. Mesmo com um frio danado, eu suei com tanto esforço, mas valeu a pena, pois a vista era espetacular. Fiz mais algumas dezenas de fotos.

No final das contas, passamos um dia muito agradável. Eu me diverti feito criança. Na verdade, é muito interessante ver um bando de marmanjos se divertindo em atividades para crianças. Ao entardecer, continuamos nossa viagem, pois o destino final era passar o fim de semana numa pequena propriedade de um dos meus amigos onde iríamos comer foie gras e beber vinho. Minhas filhas não teriam gostado do vinho. O pai gostou muito.

MAIS ALGUMAS FOTOS:

Vista das montanhas - Pirineus

Vista das montanhas - Pirineus

 

Muito frio nas montanhas

Muito frio nas montanhas

 

Neve nas montanhas

Neve nas montanhas

 

Começar de novo ...

Começar de novo ...

Publicado por: marcelopaniago | 20/09/2009

Um Brinde a Arthur

Guinness com Logo

Nesta semana, mais precisamente no dia 24 de setembro, serão comemorados os 250 anos da cerveja Guinness. Sua história teve início, portanto, em 1759 quando um senhor chamado Arthur Guinness alugou uma pequena fábrica em Dublin, na Irlanda, e começou a produzir sua cerveja. Alguns anos mais tarde, essa marca de cerveja adotou a harpa irlandesa como símbolo. Hoje, a sua cor escura, sua espessa e cremosa espuma, as formas arrendondadas e quase sensuais de seu copo, seu sabor único que varia entre o ligeiramente doce e o suavemente amargo são conhecidos e apreciados em todo o mundo.  Assim, em homenagem a Arthur, vou escrever um pouquinho sobre Dublin. 

Passei uma semana nessa bonita cidade em agosto de 2007 e fiquei com uma impressão muito positiva. Dublin é uma cidade bonita, cheia de vida, com uma área central bem cuidada e muito agradável, um bonito e despoluído rio e uma vida noturna bastante agitada. Uma belíssima combinação de adjetivos.

SpireA primeira “coisa” que chamou a minha atenção foi um monumento, no mínimo, original. O Spire of Dublin, localizado na O’Connell Street, é um monumento de aço inoxidável em forma de agulha, com 120 metros de altura e que foi concebido como parte do projeto de revitalização da área bem no coração de Dublin. Seu nome oficial é Monumento da Luz (na língua irlandesa: An Túr Solais) e aquela imensa estrutura é considerada a maior escultura do mundo. Durante o dia, ele mantém sua cor de aço, mas, ao entardecer, muda sua tonalidade de acordo com as cores do céu.  À noite, o Spire é iluminado com uma luz tênue, dando um bonito efeito àquela agulha gigantesca. Enfim, há vários adjetivos para definir o Spire of Dublin: estranho, sem graça, original, feio, curioso, de mal gosto, bonito, diferente, interessante. Só não há como ficar indiferente a ele e talvez essa tenha sido a idéia de quem o concebeu.

Rio LiffeyPor falar na O’Connel Street, essa é uma rua belíssima, com prédios e suas bonitas fachadas, um bem cuidado canteiro central cheio de estátuas de  “lordes e doutores” tão apreciadas por aquelas bandas, e gente de todos os cantos do mundo circulando por ali. Ao final dessa rua, vê-se o Rio Liffey, que atravessa a cidade e é uma de suas atrações. Em alguns pontos, há algumas passarelas com bancos e quiosques e, claro, bastante gente. Passear por suas margens ou apenas curtir um fim de tarde por ali é um atividade prazerosa.

Vida noturnaUma das grandes atrações de Dublin é, sem dúvida, sua agitada vida noturna. A possibilidade de saborear uma pint de Guinness escutando boa música é imperdível e, assim, eu fui lá conferir. Na região do famoso Temple Bar , há pubs e clubes noturnos para todos os gostos e não é exagero falar que ali circulam jovens de todas as idades e vindos das mais diversas partes do mundo. Claro que isso trás um colorido todo especial e dá àquele lugar uma atmosfera incrível. Para coroar, a temperatura no final de agosto estava agradabilíssima e isso tornava aqueles momentos ainda mais gostosos.

Durante aquela semana, eu fiquei hospedado no Portmarnock Hotel and Golf Links onde todas as reuniões eram feitas. Sim, eu estava naquela cidade a trabalho. Bom, esse hotel está localizado a aproximadamente 15 km de Dublin e à beira de uma praia imensa e bonita. Assim, outra atividade que tive a oportunidade de fazer foi correr ao entardecer naquela praia ouvindo U2 no Ipod. Músicas como Sunday, Bloody Sunday, One,  I Still Haven’t Found I What I am Looking For e With or Without You fizeram a trilha sonora daqueles muitos quilômetros corridos na Irlanda. Uma delícia. Fiz isso todos os dias antes de ir para Dublin ao anoitecer. A corrida aumentava a minha sede e aquela cidade oferecia uma deliciosa Guinness. Outra belíssima combinação.

Dublin é, sem dúvida, muito mais do que esses poucos parágrafos puderam descrever. A atmosfera, a arquitetura, os bons restaurantes e os constantes agitos daquela cidade são incríveis e sempre deixam um gostinho de quero-mais na boca. Como não podemos ir a Dublin, a Bel e eu já decidimos que, no dia 24 de setembro, iremos ao Finnegan’s, um pub irlandês aqui em Kuala Lumpur, e vamos erguer um brinde ao Arthur. Saúde!

MAIS ALGUMAS FOTOS DE DUBLIN

Spireof Dublin

Spire of Dublin

 

Agulha gigante

Agulha gigante

 

Estátua de Daniel O'Connel

Estátua de Daniel O'Connel

 

Estátua de Sir John Gray

Estátua de Sir John Gray

 

O famoso Temple Bar

O famoso Temple Bar

 

Noite agitada em Dublin

Noite agitada em Dublin

 

Praia onde eu corria

Praia onde eu corria

 

Rio Liffey

Rio Liffey

 

Ponte obre o Rio Liffey

Bonita ponte para pedestres

 

Margens do Rio Liffey

Margens do Rio Liffey

 

Arte deservir uma Guinness

Arte de servir uma Guinness

 

Um brinde a Arthur

Um brinde a Arthur

Publicado por: marcelopaniago | 13/09/2009

Borobodur – Indonésia

Buda Borobobur P&B

Visitar a Indonésia sem conhecer Borobodur é como ir a Roma e não ver o Papa. Borobodur, o maior monumento budista do mundo, está localizado na área central da Ilha de Java, cerca de 40 km de Yogyakarta. Foi construído no século VIII, originalmente como um templo hinduísta e posteriormente transformado num grandioso monumento budista. Com a chegada do islamismo àquela ilha no século XIV, Borobodur foi abandonado e envolvido, com o passar dos anos, pela floresta. Borobodur - IndonesiaSua redescoberta aconteceu em 1814 quando o então governador geral de Java, Sir Thomas Stamford Raffles, enviou o funcionário holandês H.C. Cornelius para explorar a região onde supostamente havia uma enorme construção escondida pela vegetação. Essa enorme construção era obviamente Borobodur e, imediatamente, cerca de 200 homens começaram a desencobrir o monumento e a restaurá-lo de maneira simples. Em 1973, Borobudur começou a ser completamente reconstruído sob o patrocínio da UNESCO. O monumento foi totalmente “desmontado”, cada pedra foi marcada, tratada quimicamente e novamente recolocada. Um trabalho tão grande e minucioso que durou cerca de uma década. Incrível, né?

Primeira visita a BorobodurEm setembro de 2004, fiz algumas palestras na região de Yogyakarta e tive de visitar alguns clientes naquela área. Até aí, nada demais. Entretanto, quando nos dirigíamos para um dos clientes, Soesi, minha colega de empresa naquele país, me perguntou se eu gostaria de conhecer Borobodur, pois tínhamos algum tempo disponível antes da visita. Foi como perguntar a uma criança se ela quer um doce. Aceitei imediatemente e, mesmo usando terno e gravata, fui conhecer aquela famosa atração da Ilha de Java.

Contratamos um guia e visitamos Borobodur por cerca de uma hora. É interessante pensar que o maior monumento budista do mundo está localizado no país com a maior população muçulmana do planeta. Apesar do calor sufocante e do pouco tempo disponível, fiquei impressionado com a beleza, a grandiosidade e principalmente com os detalhes daquele monumento. Prometi que eu retornaria àquele local.

Mais um turista em BorobodurEm agosto de 2008, cumpri a minha promessa. Dessa vez, sem gravata e com com mais tempo disponível. Comprei um livro-guia e percorri cada metro, subi cada degrau, estive em cada canto e observei aquele templo de cada ângulo possível. As esculturas, entalhadas nas pedras vulcânicas de Borobodur, são belas, precisas e delicadas. Algumas delas retratam passagens da vida de Buda. Fiquei especialmente fascinado em ver como as pedras eram encaixadas umas sobre as outras por meio de um sistema de alto e baixo relevo para fazer com que elas ficassem firmes. Devo ter passado três horas admirando aquela gigantesca estrutura, suas estupas e estátuas de Buda e imaginando como deve ter sido a sua construção. Literalmente, viajei na minha viagem.

Há ainda um pequeno museu com informações sobre Borobodur, sua descoberta e suas reformas. As fotos ali expostas mostram a grandiosidade do trabalho patrocinado pela UNESCO. Cada detalhe foi minuciosamente catalogado e preservado.

Na saída, há uma espécie feira com lembracinhas de Borobobur, bugigangas “made-in-China”, comidas, bebidas, roupas, artesanatos, mais bugigangas “made-in-China” e meninos insistentemente querendo vender lembrancinhas ou livros sobre aquele monumento. Apesar do calor e do cansaço de final de visita, vale a pena passear por entre essas barracas e sentir aquela atmosfera comum a qualquer atração turística.

Para terminar, visitar Borobodur é uma experiência única, pois sua história, arquitetura, beleza e grandiosidade fazem com que esse monumento seja uma das maravilhas do mundo. Só não recomendo visitar Borobodur de terno e gravata…

 

MAIS ALGUMAS FOTOS DE BOROBODUR

Borobodur - Uma das maravilhas do mundo

Borobodur

 

Estátua de Buda em Borobodur

Estátua de Buda em Borobodur

 

Estupas em Borobodur

Estupas em Borobodur

 

Faces esculpidas nas paredes

Faces esculpidas nas paredes

 

Estudando Borobodur

Estudando Borobodur

 

Turistas ...

Turistas ...

Publicado por: marcelopaniago | 06/09/2009

Comunidade Amish

Sr Aaron e seu cavalo

Em 1985, o filme Testemunha (Witness) foi lançado no mercado. Naquela película, um menino é testemunha de um crime e, para sua própria proteção, o investigador do caso, interpretado por Harrison Ford, decide levá-lo, com a sua mãe, para a comunidade Amish onde viviam. Claro que o galã se apaixona pela mãe do garoto, os assassinos tentam se livrar da testemunha e o filme prossegue. Essa foi, provavelmente, a primeira vez que ouvi falar alguma coisa sobre os Amish.

Mais recentemente, em 02 de outubro de 2006, essa comunidade religiosa voltou às manchetes dos jornais. Dessa vez por causa de um crime bárbaro cometido numa pequena escola para crianças Amish em Bart Township, no condado de Lancaster, Pensilvânia. Naquele dia, às 10:25 da manhã, Charles Carl Roberts IV entrou na escola, fez alguns reféns, matou 5 meninas com idades que variavam entre 6 e 13 anos de idade e, por fim, suicidou-se. Foi uma verdadeira tragédia.

Em junho de 2009, participei de um seminário em Harrisburg, capital da Pensilvânia e, naquela oportunidade, tive o prazer de visitar uma comunidade Amish localizada no condado de Lancaster. Vou descrever um pouco dessa experiência.

Meio de transporteAmish, para quem não sabe, é um grupo religioso cristão anabatista conhecido por seus costumes conservadores. Anabatista significa que esse grupo rejeita o conceito de batismo de crianças por acreditar que esse sacramento deve ser limitado àqueles indivíduos com idade suficiente para um sincero compromisso com os deveres religiosos. O nome Amish é derivado de Jacob Amman, um religioso do século XVII que se separou dos menonitas e seguiu um caminho ainda mais conservador. Enquando viviam na Europa, esse grupo foi duramente perseguido em função de suas crenças religiosas e, assim, no início do século XVIII, os primeiros Amish chegaram aos Estados Unidos e se instalaram principalmente no estado da Pensilvânia. Hoje, estima-se que haja cerca de 200 mil Amish vivendo nos EUA e Canadá.

Depois dessa pequena introdução, vamos à visita propriamente dita. Ao chegar ao condado de Lancaster, fomos direto ao centro para recepção de visitantes, compramos os ingressos e fomos recebidos em uma pequena sala por uma senhora que, por cerca de 45 minutos, deu algumas informações básicas a respeito daquela comunidade e respondeu às perguntas dos visitantes.

Modelo de casa AmishDepois disso, visitamos uma casa que, segundo a guia, é uma réplica de uma casa Amish. Era uma casa simples, mas não era muito diferente do que conhecemos. Os quartos, banheiros, sala e cozinha eram “normais” e os móveis eram apenas mais rústicos. Talvez a maior diferença seja que atividade da família gira em torno da cozinha que é considerada o lugar mais importante da casa. Como os Amish  não usam a eletricidade, não há televisão, rádio ou eletrodomésticos. Entretanto, há geladeira, máquina de lavar, ferro de passar roupa e máquina de costura, mas esses utensílios são movidos por diferentes fontes de energia.  A geladeira, por exemplo, é movida a gás. A iluminação pode vir de pequenas lâmpadas de querosene ou de um grande lampião ligado a um botijão de gás.

  Luz a gas   Roupas de mulheres Amish

Segundo a nossa guia, os Amish não usam eletricidade por considerar que isso seria um fator de desagregação da família. Ela citou o exemplo de famílias modernas em que o filho fica ligado à internet num quarto, a filha escuta música no outro e o pai assiste a um jogo de futebol na TV. Sem energia elétrica, a família Amish fica reunida na cozinha e isso propicia um ambiente familiar mais saudável. Sob esse ponto de vista, ela tem razão. Entretanto, essa explicação não me satisfez. A energia elétrica foi inventada no final do século XIX e, naquela época, não era possível prever que todos esses inventos estariam à disposição das famílias e que teriam esse poder de desagregá-las. Sei lá. Deve haver outra razão para isso.

Trabalho nas fazendasComo eles não têm televisão, as famílias são grandes. Em média, cada família tem de 6 a 8 filhos. Basicamente, eles vivem da terra. Contudo, a terra disponível naquela área está ficando cada vez mais escassa para as novas gerações e, com isso, outras atividades estão sendo desenvolvidas na comunidade: encanadores, donos de lojas, prestadores pequenos serviços para turistas etc. Como alguns Amish estão envolvidos em negócios em que telefone é essencial, alguns deles têm, sim, telefones celulares. A diferença é que as baterias dos celulares são recarregados diretamente de baterias de carro. É o progresso batendo à porta dos Amish. Segundo a nossa guia, eles até frequentam o McDonalds!

Apesar desses “momentos de modernidade”, é certo que os Amish preferem viver afastados do restante da sociedade. Eles não prestam serviço militar, não pagam a Segurança Social e não aceitam qualquer forma de assistência do governo. Nem mesmo o Bolsa-Família! Mas, diferente de que alguns possam pensar, eles pagam impostos. Também não há igrejas para que eles celebrem seus cultos. Assim, a cada duas semanas, uma família recebe seus amigos e vizinhos para o serviço religioso. Durante essa celebração, há cânticos em uma língua estranha derivada do alemão e leitura do livro sagrado deles. Toda a “missa” dura entre três e quatro horas.

Mocas AmishQuanto à maneira de se vestir, as mulheres usam vestidos longos, geralmente nas cores azul, verde ou preto, com um avental por cima do vestido. Se a mulher é casada, o avental deve ser preto. Se ela é solteira, o avental é branco. Uma espécie de toca branca também deve ser usada. Os homens vestem ternos pretos ou azul escuro e as calças não tem zíper. Além disso, homens casados têm de usar barba sem cortar, mas com o bigode raspado.

Homem Amish

Entretanto, nem tudo são flores entre os Amish. Como casamentos fora da comunidade não são permitidos, existe o problema da consanguinedade e suas consequências são tristes. Além disso, os Amish consideram que educação só é necessária para que eles se transformem em bons fazendeiros ou boas esposas, mães ou donas-de-casa. Eu acho que isso limita as oportunidades futuras dos jovens no mercado de trabalho fora da comunidade e faz com que eles continuem, queiram ou não, seguindo aquele modelo de vida. Isso, para mim, é uma forma de opressão.

Meio de transporte 2Depois da visita à casa Amish e de todas essas informações, entramos num carro e começamos a visitar o condado de Lancaster. Eu esperava encontrar uma vila onde todas as casas da comunidade Amish estariam concentradas, mas não é exatamente isso que há naquela área. Famílias Amish vivem lado a lado com outras famílias não-Amish. Não há nada de especial, apenas que, de vez em quando, pode se ver uma carroça Amish, uma ponte coberta construída por membros dessa comunidade ou algumas crianças vestidas de forma diferente no meio do trânsito. Só isso.

Terminada essa volta pela região, fomos a um restaurante em que era servida comida ao estilo Amish. Comida muito boa, temperada com uma grande fome. Depois do jantar, enquanto meus colegas de empresa continuavam à mesa, eu saí para “explorar” as redondezas. Andei algumas centenas de metros e vi um senhor Amish alugando uma carroça para turistas. Mais um sinal de modernidade. Por 20 dólares, eu teria um passeio de 30 minutos.

Excitante passeio de carrocaEntrei na carroça e o passeio começou. No início, ele começou a despejar um monte de informações decoradas a respeito de sua comunidade. Bem típico de guias de turismos. Ouvi aquilo por alguns minutos e então falei que eu preferia conversar sobre alguns aspectos do dia-a-dia. Ele até se mostrou satisfeito com a minha curiosidade.

O passeio em si não teve nada de muito especial, mas a oportunidade de conversar com o Sr. Aaron, um Amish de aproximadamente 60 anos de idade, foi única. Conversamos sobre família, filhos, costumes, progresso e, no final de nosso papo, ele me falou que tinha passado toda a sua vida naquela localidade e estava muito feliz com isso. O Sr. Aaron até aceitou tirar uma foto comigo. Infelizmente, ele não tem endereço eletrônico (e-mail) e eu não pude enviar-lhe foto. Alguns Amish são moderninhos, mas nem tanto!

Sr Aaron e eu

Na verdade, os Amish não têm fotografias como recordação. Eles fazem uma espécie de árvore genealógica que fica pregada na parede como se fosse uma fotografia da família. Interessante, né?

Referências:

Além das informações obtidas durante minha visita àquela comunidade, alguns dados foram obtidos dos seguintes livretos:

a. Amish Country – A Pictorial View.  Published by Americana Souvenirs & Gifts. 2000

b. Hanley, L. Amish – The Old Order – In Words and Photos.  Published by Americana Souvenirs & Gifts.

c. Redcay, T. J. .The Old Order Amish – In Plain Words and Pictures.  Published by Americana Souvenirs & Gifts. 2000

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