Transporte público é um problema em quase todas as grandes cidades do mundo e não poderia ser diferente na Ásia. Na realidade, as metrópoles asiáticas enfrentam problemas agudos nessa área e algumas cidades adotaram meios de transporte interessantes para tentar minimizar esse problema.
No Vietnã, por exemplo, o número de motocicletas é assustador. Estima-se que haja 20 milhões motos e motonetas naquele país. Em Ho Chi Minh, antiga Saigon, uma cidade com cerca de 7 milhões de habitantes, há 3,5 milhões de motos. Uma motocicleta para cada dois habitantes! Com números assim, não é difícil de entender porque, no início das manhãs e no final das tardes, quando as ruas e avenidas da cidade são inundadas pelas motocicletas e motonetas, ocorrem verdadeiros engarrafamentos.
Isso também gera algumas situações interessantes. O simples fato de atravessar uma rua transforma-se numa tortura. Meu colega de empresa, Bang, me explicou que se deve manter um ritmo constante de caminhada durante a travessia. Ao fazer isso, as motocicletas desviam-se dos pedestres. Com um pouco de medo, fiz isso algumas vezes e funcionou. Sem dúvida, é mais seguro atravessar nas (poucas) faixas de pedrestres. Além disso, há um comportamento interessante entre as mulheres “motoqueiras”. Como a cor branca da pele é muito valorizada, as mulheres dirigem as motos cobertas com longas luvas e máscaras, para evitar a exposição prolongada ao sol ardente dos trópicos. A vaidade feminina não tem limites. Outra curiosidade é ver que tudo, absolutamente tudo, é transportado nessas motonetas. Uma festa para os fotógrafos.
Nas Filipinas, os jeepneys estão presentes em todos os cantos do país. Esse veículo tem uma história interessante. Quando as tropas americanas começaram a sair das Filipinas no final da II Guerra Mundial, centenas de jeeps formam vendidos ou mesmo dados aos moradores daquelas ilhas. Imediatamente, os filipinos começaram a adaptar aqueles veículos para acomodar vários passageiros, colocando assentos e um teto de metal para protegê-los do sol. Por fim, os jeepneys eram decorados com desenhos, de gosto duvidoso, feitos com cores muito vibrantes. Assim, nasceu um jeito popular e criativo de transporte de massa que havia sido virtualmente destruído durante a Segunda Grande Guerra.
Em Bancoc, na Tailândia, os tuk-tuk são parte da cinzenta paisagem da cidade. Esses pequenos triciclos motorizados são usados como táxis e recebem esse carinhoso nome por causa do barulho do motor. Apesar da falta de segurança, turistas adoram passear em alta velocidade pelas ruas barulhentas e engarrafadas da cidade, sentados num tuk-tuk e respirando a fumaça amarga de seu escapamento. Não há como negar que há um charme em ver Bancoc por esse ângulo. É perigoso, mas excitante.
No entanto, não é só na Tailândia que os triciclos motorizados estão presentes. Eles também são vistos em outros paises como Índia, Paquistão, Bangladesh e Cambódia. Em cada um desses países, eles recebem diferentes nomes, mas, no fundo, é a mesma coisa: barulho, inseguranca, velocidade e fumaça. Ou seja, é tudo o que um turista quer experimentar.
Em Bangladesh, como já mencionei na resenha Bangladesh, Mais Uma Vez, publicada em abril, há triciclos que são usados para transporte de pessoas e cargas. Ou de pessoas e carga ao mesmo tempo. Esses veículos são conhecidos como rickshaws. Como o relevo daquele país é predominantemente plano, ou seja, sem subidas íngremes, esse meio de transporte se adaptou por todos os cantos. Algumas estimativas apontam que, só na capital, Daca, haja cerca de meio milhão de desses triciclos. Claro que essa imensa quantidade de rickshaws espalhados pelas ruas da capital atrapalham um pouco o fluxo de veículos motorizados, mas inegavelmente, esse meio de transporte é ecologicamente correto. Não poluem, não são responsáveis pelo aquecimento global e ainda são fonte de renda para centenas de milhares de famílias. Algum dia, o mundo vai copiar o que é feito em Bangladesh. Alguém duvida?
ALGUMAS FOTOS FORAM OBTIDAS NOS SEGUINTES ENDEREÇOS:
http://onemansblog.com/wp-content/uploads/2008/02/vietnamese-loaded-scooter.jpg
http://features.csmonitor.com/backstory/2008/10/01/vietnam-eats-sleeps-and-dreams-on-motorbikes/
http://images.travelpod.com/users/cklenotic/10.1226686860.tuk_tuk.jpg








A primeira vez que vi tal estrutura foi na Ilha de Langkawi, na Malásia. Durante um passeio nos manguezais daquela ilha, o barco em que a Bel e eu estávamos passou por uma dessas vilas onde havia alguns barcos-moradia e uma fazenda de peixes (“fish farm”). Era uma vila pequena, sem muitos atrativos, mas ficamos impressionados com a fazenda de peixes. Na verdade, era apenas um local onde diversas espécies de peixes eram mantidas em pequenos cercados para que turistas pudessem obervá-los, alimentá-los e, se quisessem, até comprar peixes bem frescos. Havia um cercado com algumas arraias e alimentá-las foi, ao mesmo tempo, excitante e amedrontador.
Durante uma visita a Bangladesh, vi uma aglomeração de barcos na beira de um rio. Mr Rhaman, meu anfitrião naquele país, parou o carro para que eu pudesse conhecer um pouco mais aquele modo de vida. Decidimos fazer uma rápida visita e a miséria e o sofrimento que vi estampados nos rostos precocemente envelhecidos foi de cortar o coração. Apesar de toda a pobreza, sorrisos nos faziam bem-vindos, mas ver famílias inteiras, crianças e velhos, vivendo em pequenos barcos, sem as mínimas condições de higiene e conforto, foi muito triste. Imaginar que tudo o que aquelas famílias possuiam cabia dentro de uma pequena embarcação foi depressivo até. Saí daquela vila com um nó na garganta.
A mais completa vila flutuante que já visitei está localizada em Siem Reap, no Cambódia. Naquela cidade, além dos templos localizados no Parque Arqueológico de Angkor, é quase obrigatória uma visita à famosa vila que está localizada nas proximidades do lago Tonle Sap. Ao chegar ao local, aluga-se um barco e navega-se no canal de águas barrentas até o lago. Logo após iniciar a pequena viagem de barco, já é possível observar todas as estruturas flutuantes: casas (casas-barco), escola com uma quadra de basquete, oficinas para barcos, chiqueiro, pequenos armazéns e até uma igreja católica. Tudo, ou quase tudo, que se espera ver numa cidade normal estava presente naquela vila flutuante.
É inegável que visitar essa vila flutuante seja um passeio interessante, pois a forma de vida é completamente diferente do que conhecemos. Mas é também verdade que a pobreza do lugar é deprimente. Crianças sentadas em bacias de plástico como se fossem pequenos barcos a remo estão por toda parte brigando por um trocado. Outras, vendem bananas e refrigerantes ou apenas brincam, alheias à miséria que as cerca. É triste.







Esse museu, pequeno e relativamente mal montado, contém basicamente artefatos e informações relacionados com a participação americana e retrata alguns dos horrores cometidos durante aquela sangrenta guerra. Lá estão expostos armas, bombas que não explodiram, tanques, helicópteros e até aviões que foram usados naquele período. Há também milhares de fotos, mas o que mais me impressionou foi um filme que mostrava as sequelas terríveis deixadas pelo conflito na população daquele país.
Outra atração imperdível que faz parte dessa nova e crescente indústria do “turismo da guerra” são os famosos túneis de Cu Chi, localizados a 70 km da cidade de Ho Chi Minh e que foram um dos mais famosos campos de batalha da Guerra do Vietnã. Os túneis de Cu Chi têm cerca de 120 km de extensão e são formados por uma imensa rede de túneis conectados que serviam como base de operações do exército vietcong e eram também usados como esconderijo, depósito de armas, moradia para alguns guerrilheiros, rotas de comunicação e suprimentos e até como hospital.
Durante o dia, os guerrilheiros passavam intermináveis horas dentro dos túneis trabalhando ou descansando e, à noite, saíam para procurar comida, cuidar das plantações ou lutar contra seus inimigos. Às vezes, durante períodos de bombardeios ou movimentos das tropas americanas, eles eram obrigados a passar vários dias debaixo da terra. Coisa de louco.











Parece que rezavam e pediam proteção. Quando a luta era iniciada, havia chutes, socos, mais chutes e até um pouco de sangue. Como no boxe tradicional, as lutas são divididas em “rounds”. A cada intervalo, os treinadores passavam algumas instruções para seus pupilos e a pancadaria continuava. Mais chutes e mais socos. No final das lutas, um dos lutadores era proclamado o ganhador. Naquela noite, houve somente um nocaute. Um dos lutadores perdeu os sentidos e teve de ser socorrido pelos médicos de plantão. Após assistir a alguns combates, fiquei com a impressão de que esse esporte é até mais violento que o boxe tradicional. Por fim, depois de terminadas as lutas, os turistas eram levados aos camarins para conhecer os lutadores e tirar algumas fotos com eles. E comigo não foi diferente. Fui levado até lá e fiz a foto. Claro que se paga alguma coisa para ter essa recordação.
que aconteceu com um lutador de boxe tailandês. Um menino chamado Parinya Charoenphol, popularmente conhecido como Nong Thoom, depois de viver um curto período como um monge budista, decidiu ser boxeador. Seu objetivo era ganhar dinheiro para ajudar sua família e pagar a cirurgia de mudança de sexo. Sim, ele queria se tornar uma mulher. A sua vida começou a mudar quando, em fevereiro de 1998, ele conseguiu uma vitória no Lumpini Boxing Stadium em Bancoc, considerado o templo máximo desse esporte. A imprensa local ficou intrigada com a aquela situação: um garoto de 16 anos, usando maquilagem, ganhando de um oponente muito mais musculoso e, depois da vitória, beijando-o na face. Ele ganhou notoriedade e suas lutas passaram a atrair mais e mais gente.
Em 1999, Nong Thoom abandonou os ringues e se submeteu à cirurgia de mudança de sexo. Mais recentemente, em 2003, essa estória virou um filme chamado “A Beautiful Boxer”. Com certeza, a mocinha aí do lado é boa de briga. Quem vai querer encarar?
Em 1975, um sujeito meio maluco chamado Paul Theroux, apaixonado confesso por trens, decidiu viajar pela Ásia usando apenas esse meio de transporte. Saindo de Londres, ele passou países tão diversos como Turquia, Irã, Paquistão, Índia, Vietnã, Malásia, Japão e outros, terminando essa imensa jornada, depois de mais de três meses, a bordo do famoso Expresso Transiberiano. Ele descreve, com detalhes, essa viagem no livro O Grande Bazar Ferroviário – De Trem pela Ásia, publicado pela Editora Objetiva. Recentemente, li esse livro e, enquanto eu saboreava aquelas narrativas, comecei a pensar sobre as viagens de trem que eu já havia feito. Não são muitas nem tão interessantes quanto aquelas descritas no livro, mas vou aqui relatar algumas.
Isso obviamente ganhou as manchetes mundiais. Cinquenta quilômetros debaixo do mar. Claro que esse fato estimulou a minha imaginação. Comprei a passagem para o Eurostar e fui para a imensa Vitoria Station. Ansiedade pura. Aquela seria a primeira vez que eu iria a Paris e, ainda por cima, nesse trem. Embarquei. Num acento na janela, pois eu queria ver tudo. Tudo mesmo. Na hora H …. Tchan, tchan, tchan! Eu não vi absolutamente nada. Nada mesmo. Eu apenas sabia que o trem estava dentro de um túnel. E foi isso. Que decepção. Só escuridão, nada mais. Bom, para compensar, Paris foi uma maravilha. Um dia eu conto essa experiência.
Na Europa, viagens de trem são muito comuns. Na França, por exemplo, o trem TGV (Train à Grande Vitesse ou Trem Rápido, na língua de Camões) é confortável, veloz, muito prático e nunca atrasa. A não ser quando os franceses fazem greve. E meus amigos franceses sempre me dizem que a greve é o esporte nacional. Será? Bom, eu nunca enfrentei um atraso sequer no TGV naquele país. Quando a Bel e eu viajamos de Budapeste para Viena, em outubro de 2008, utilizamos o trem. Nada demais. Viagem rápida, confortável e sem sobressaltos. Nada digno de nota, mas é sempre interessante ter à disposição um meio de transporte barato, seguro, rápido, pontual e eficiente. Coisas do primeiro mundo.
O mais interessante daquelas longas viagens foi observar o comportamento dos chineses. Eles andam constantemente pelos corredores, fumam incessantemente nas conexões entre os vagões, falam alto como se estivessem sozinhos no trem, bebem, comem, fumam mais uma vez entre os trens, cospem por todos os lados. E eu simplesmente me divirto com tudo isso, pois é mais uma oportunidade de observar uma cultura tão diferente. Sempre que meus colegas chineses me perguntam se eu quero viajar de avião ou trem, eu não tenho a menor dúvida. Não sou louco por trens como Paul Theroux, mas algumas viagens de trem são simplesmente imperdíveis.
Numa outra oportunidade, dessa vez em Taiwan, em junho de 2008, depois de fazer uma palestra em Tainan, uma cidade localizada no sul daquela ilha, tive de voltar rapidamente para Taipei, no extremo norte do país, para pegar meu voo de volta para Kuala Lumpur. Não haveria tempo para a viagem de carro e então decidimos voltar de trem. Para minha surpresa, era um trem-bala capaz de atingir velocidades acima de 300 km/h. O interessante é que não se sente nada dentro do trem, apenas a paisagem passando muito depressa pela janela. Foi uma viagem bem rápida e confortável. Gostei muito daquela experiência.
Saímos do hotel às 7 da manhã. Minha primeira surpresa foi com a estrada em si. Na verdade, uma rodovia belíssima, muito bem sinalizada (placas escritas em inglês e em urdu, a língua local), com 3 pistas de cada lado, divididas por uma barreira de concreto, e, mais importante, extremamente bem conservada. De forma geral, a rodovia estava vazia. Poucos carros, alguns caminhões e quase nenhum ônibus.

Para descansar um pouco, paramos num desses postos de abastecimento de combustível e restaurante na beira da estrada. Mais uma boa surpresa. O restaurante era bastante limpo, o atendimento bom e o ambiente agradável. Sentamos numa mesa e pedi café. Depois de alguns minutos, um café horrível foi sevido, mas bebi assim mesmo. Voltamos para o carro e continuamos a viagem.